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Predadores, por Aloizio Mercadante

“Precisamos construir outro caminho, de desenvolvimento com transição ambiental e matriz energética mais sustentável”, afirma o presidente da Fundação Perseu Abramo

Agência Brasil

Aloizio Mercadante. presidente da Fundação Perseu Abramo: "Não temos mais tempo para tomar medidas preventivas e de fortalecimento do SUS, capazes de salvar milhares de vidas" O governo Bolsonaro vem fomentando um capitalismo predatório. Na Amazônia, construiu uma política de aliança com os madeireiros, mineradores e grileiros de terra, que promovem o desmatamento ilegal e a exploração predatória de recursos naturais estratégicos, acobertados sob a liderança do ministro Ricardo Salles. O caso mais emblemático desse processo foi a operação da Polícia Federal, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, em que o ministro do Meio Ambiente sofreu uma busca e apreensão, acompanhada pela demissão do presidente do Ibama e nove servidores, sob a suspeição de associação e favorecimento de grandes grupos envolvidos com a exportação ilegal de madeira.

Combater o desmatamento acelerado da Amazônia, que volta a bater recorde, é o principal compromisso ambiental do Brasil no esforço global de redução na emissão de carbono e no enfrentamento do aquecimento global. Por isso, a importância desses temas estarem na pauta dos governos e nas agendas das instituições multilaterais. A preservação do meio ambiente é condição imprescindível para a manutenção da própria experiência humana no planeta.

O Brasil é o G1 da biodiversidade do mundo. Está em nosso território a maior floresta tropical do mundo, que possui um papel decisivo no equilíbrio do regime de hidrológico de parte importante do planeta, o que nos abre uma imensa janela de oportunidades, mas também aumenta a nossa responsabilidade.

A partir dessa visão, nos governos do PT, o Brasil se tornou líder dos países em desenvolvimento e assumiu a vanguarda de políticas de baixa emissão de carbono. Tivemos papel destacado no Acordo de Paris e assumimos metas ousadas para conter o aquecimento global, inspirando demais nações por uma aliança planetária em torno da preservação da vida em toda sua diversidade.

O combate ao aquecimento global não se deve dar apenas nos centros urbanos, mas também no campo, com a preservação de recursos estratégicos e com a adoção de tecnologias de agricultura de baixo carbono. Por isso, vínhamos construindo instrumentos de incentivo a novas tecnológicas e manejos na agricultura, o que foi completamente abandonado pelo atual governo.

O ministro Salles parece levar a cabo a teoria de que é “preciso passar a boiada”, enquanto o país agoniza diante da pandemia e alforria os madeireiros responsáveis por 8 mil cargas de madeira ilegal. O governo também assiste passivamente mineradores invadirem ilegalmente, com bombas de gás lacrimogênio e violência, as terras do povo Yanomami em Roraima. Só para ficar nos exemplos recentes.

Estamos diante de um processo acelerado de enfraquecimento dos órgãos e políticas de proteção ao meio ambiente e dos povos indígenas. É essa visão predatória que garante à Bolsonaro o apoio de uma parte atrasada do agronegócio. Um segmento autoritário, que não respeita a democracia e que articula manifestações contra o STF e o Senado, com a grave participação do ministro da Defesa e do próprio presidente.

Precisamos construir outro caminho, de desenvolvimento com transição ambiental e matriz energética mais sustentável. Um caminho que preserve recursos naturais estratégicos e que seja a negação de tudo o que Bolsonaro representa. Essa é uma questão fundamental para o PT, para as futuras gerações e para futuro do planeta.

* Ex-ministro de Estado, é presidente da Fundação Perseu Abramo.