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Mulheres lideram entidades estudantis dos cursos de engenharia da USP


Foto: reprodução (Jornal da USP)

“É difícil ser mulher na engenharia, mas extremamente necessário. Eu sou fruto da luta de todas que vieram antes, e motivo de inspiração das que virão depois”, diz Ana Catarina Silva, presidente do Centro de Engenharia Civil Professor Milton Vargas (CEC) da Escola Politécnica (Poli) da USP. Ela tem 22 anos e cursa o quarto ano de Engenharia Civil. Ana Catarina é a segunda presidente mulher da história do seu centro acadêmico, que existe há 15 anos, e a primeira gestora negra. “Ser mulher em cargo de liderança, e ainda uma mulher negra, em uma faculdade majoritariamente masculina e branca, é sinônimo de luta e de muito orgulho.”

A Poli, uma das escolas mais tradicionais da USP, que nasceu em 1893 — data que antecede em 40 anos a criação da própria Universidade, que a absorveu — ainda tem predomínio dos homens. Graduação, pós-graduação, pesquisa, docência: as mulheres passaram muitos anos longe desses espaços, longe das engenharias, e das exatas como um todo. Mas esse quadro começou a mudar nos últimos tempos.

“A participação de mulheres nos cursos de engenharia na Escola Politécnica vem aumentando”, diz Liedi Bernucci, atual diretora da Poli e primeira mulher na história a ocupar o cargo. Com 20% de mulheres entre os alunos, essa distribuição varia de acordo com o curso: na Mecânica e Mecatrônica, por exemplo, mulheres são hoje cerca de 10%, enquanto na Ambiental passam de 30%. Na pós-graduação a média é maior, 26% de mulheres.

A diretora defende, porém, que o aumento do número de alunas não pode parar por aí. “Isso nos faz incentivar os eventos e as atividades que valorizam as mulheres na engenharia, mostrando às jovens o que são esses cursos e que não existe atividade na engenharia que uma mulher não possa exercer.”

Liedi diz que a Poli passa por um momento histórico: 9 de 10 entidades estudantis (número que inclui os centros acadêmicos, Atlética e Grêmio Politécnico) são hoje presididas por mulheres, apesar de elas ainda serem minoria entre os discentes. “Vejo isso como uma grande vitória. Demonstra diversidade na Poli, respeito à liderança das mulheres e reconhecimento de sua competência.” Ana Catarina Silva, estudante da Poli e presidente do Centro Acadêmico de Engenharia Civil; e Liedi Bernucci, diretora da Poli - Foto: Arquivo pessoal e Divulgação/Poli USPMas não é só em São Paulo que as mulheres estão ingressando cada vez mais nos cursos de engenharia e liderando entidades estudantis. São Carlos e Lorena também passam por processos parecidos.

Foto: reprodução

A Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) tem atualmente 28% de mulheres nas estatísticas gerais de seus cursos de engenharia, com muita variação entre cada carreira. Na Engenharia Ambiental, 53% dos discentes são mulheres, enquanto em cursos como Elétrica, Mecatrônica, Mecânica e Aeronáutica, elas não passam de 14%.

“Ainda é baixo o número de mulheres em São Carlos, entram poucas alunas e existe evasão. A situação continua alarmante, mas dá para ver que mais mulheres estão ingressando e isso é muito bom”, diz Helena Bastos Peres, 20 anos. Ela cursa o segundo ano de Engenharia Mecânica e é presidente da Secretaria Acadêmica da Mecânica (Sameca). “Quando uma mulher vira exemplo, ela chama outras mulheres a seguirem esse caminho.” Helena Bastos Peres, estudante da EESC e presidente da Secretaria Acadêmica da A maior proporção de mulheres entre as três cidades é a da Escola de Engenharia de Lorena (EEL). Lá, as alunas já são 42%. Também existem variações entre os cursos: na Engenharia Bioquímica elas são maioria, compondo 60% dos alunos. Já na Engenharia Física, que conta com a menor proporção feminina, mulheres são 21%.

“Eu participo do Centro Acadêmico de Engenharia Química (CAEQ) da EEL há três anos, e sinto que existe um aumento da participação das mulheres nas gestões, assim como de outras minorias. Principalmente nos cargos de liderança.” Amanda Xavier Paschoeto dos Santos tem 20 anos, cursa o terceiro ano de Engenharia Química e é presidente do CAEQ. Atualmente a nossa gestão é formada por 56% de mulheres, 18% de LGBTQIA+ e 22% de pessoas que não se identificam como brancas. É claro que esses números ainda não são tão diversos quanto a gente gostaria que fossem, mas buscamos melhorá-los a cada gestão.”


O papel dos centros acadêmicos

Os centros acadêmicos (CAs) costumam fazer a diferença na vida universitária. Tanto de quem acaba de chegar na USP e se sente perdido por estar em um ambiente completamente novo, quanto dos alunos mais experientes.

Apesar das muitas variações na forma de se organizar, os CAs — que podem ter outros nomes, como em São Carlos, onde se chamam “secretarias acadêmicas” — podem ser definidos como entidades estudantis que fazem a representação dos alunos perante a coordenação e professores e criam redes de apoio entre os estudantes.

Reunião da Secretaria Acadêmica da Engenharia Mecatrônica de São Carlos, em 2019 - Foto: Divulgação/SAdEM

Estas entidades, administradas pelos alunos, promovem muitas atividades. Dentre as mais comuns estão a integração de calouros e veteranos, ações para aumentar o sentimento de pertencimento e identificação do estudante com seu curso, organização e formação política, ponte para fazer demandas, e suporte para a entrada no mercado de trabalho. Os CAs também costumam organizar eventos, ajudar nos estudos e com questões burocráticas, além de apresentar a cidade para os calouros.


Centros acadêmicos continuam suas atividades durante a pandemia. Reunião online do CAEQ-EEL - Foto: arquivo CAEQ

Enquanto os centros acadêmicos representam, via de regra, um único curso, os diretórios acadêmicos representam mais de um curso de uma mesma área. “É um suporte tanto para vida acadêmica quanto para a vida social.” Ana Catarina considera que o CA é o “alicerce” dos alunos. “Lá a gente faz amigos, se desenvolve profissionalmente a partir das funções de gerir pessoas, liderar, fazer trabalho em equipe, e também conseguimos colocar em prática algumas das temáticas que aprendemos em sala de aula.”


Mesmo sendo minoria, elas comandam

Por ser uma entidade central para a vida universitária, a participação e a liderança de mulheres nos centros acadêmicos ajudam a combater o machismo na universidade. Beatriz Bicudo, do terceiro ano de Engenharia Elétrica, é a quarta presidente mulher na história do Grêmio Politécnico, que representa todos os alunos da Poli e existe desde 1903. Ela sente que mudanças estão acontecendo. “Conseguimos ter uma visão mais global porque estamos em contato com todos os cursos, então posso dizer que esse é um movimento geral na Poli. Hoje, os centros acadêmicos estão cheios de mulheres nas gestões e nas lideranças, apesar da grande maioria masculina nos cursos. Minha gestão é histórica, porque é a primeira vez que temos, ao mesmo tempo, presidente e vice-presidente mulheres.”

A situação é parecida em São Carlos. Kamila Menezes Gigante, de 21 anos, é parte da chapa de coordenadoria da Secretaria Acadêmica da Engenharia Mecatrônica (SAdEM). Ela está no quarto ano da Mecatrônica, e conta que, apesar da predominância dos homens como alunos, são as mulheres que estão liderando a secretaria. “As meninas no meu curso não são nem 15%. Mas nos nossos cargos de liderança a gente tem hoje uma proporção muito maior de mulheres. Nos cargos mais altos da SA, que seriam os de coordenadoria, nós somos em 40%. E nos cargos de gestoria, que são anteriores aos de coordenadoria, a gente tem uma porcentagem de 25% de mulheres.”

Lorena tem a maior proporção de alunas nos cursos de engenharia entre as três escolas da USP, e isso intensifica ainda mais a liderança das mulheres nas entidades estudantis. É o que pensa a presidente do Diretório Acadêmico da EEL, Gabriela Mendes Soldi, de 22 anos, que cursa o 5º ano de Engenharia Ambiental. “Nós mulheres somos hoje maioria nas presidências e vice-presidências entre os 6 centros acadêmicos e o Diretório. Na EEL temos em torno de 35 entidades estudantis e somos a maioria nelas também.”

Beatriz Bicudo, Kamila Gigante e Gabriela Soldi: lideranças nas entidades estudantis de cursos de engenharia - Foto: Arquivo pessoal

O Diretório conta atualmente com 24 mulheres e 22 homens. “No início, as chapas eram compostas majoritariamente por homens, mas isso mudou. Em 2018, 2019 e 2020 tivemos diretorias constituídas por 50% de representantes femininas. Pude acompanhar durante esses três anos que o número de inscritas tem crescido e ultrapassado o de inscritos.” Gabriela considera que a presença de mulheres nas engenharias e em cargos de liderança é muito importante. “As cinco mulheres que já passaram pela presidência do Diretório abriram espaço para que o machismo não fizesse parte das nossas realidades, e quando a gente vai se libertando, vamos ajudando outras mulheres. Nós estamos ocupando espaços e conquistando aquilo que é nosso por direito.”


Programas de incentivo às mulheres e redes de apoio

As alunas das engenharias da USP se organizam em redes de apoio e fundam iniciativas voltadas a mulheres para melhorar sua experiência na vida acadêmica, social e cotidiana. Mariana Rocha Nogueira tem 21 anos e cursa o terceiro ano de Engenharia Ambiental. Ela preside o mais novo centro acadêmico da Poli, o CAEA, criado há 5 anos. “Nós buscamos ter iniciativas de luta por um ambiente mais acolhedor no curso, para mulheres, pessoas pretas, indígenas, pessoas com deficiência, LGBT e tantas outras minorias”.

O CAEA tem projetos de cultura interna, como o Gestão Consciente, que é uma proposta de “educar a gestão, e debater temas importantes, em relação às desigualdades sociais”. Para a comunidade de estudantes da Engenharia Ambiental, um programa similar é desenvolvido, o Abrindo Os Olhos. O centro acadêmico ainda conta com uma coluna de diversidade em seu jornal.

“Uma das coisas que notei nesses 3 anos de Poli foi o crescimento de projetos voltados para a inserção de mulheres e outras minorias, coisa que não existia antes”. Mariana conta que o CA trabalha em conjunto com coletivos, como o Frente PoliPride, Poli Negra, e o Politécnicas (R)existem.

“Nós também temos projetos com o Diretório Acadêmico, composto pelos 9 Centros Acadêmicos, Grêmio e a Atlética. Um deles é o Meninas na Poli, que busca aproximar jovens que cursam ensino médio na escola pública à faculdade de engenharia, apresentando o ambiente universitário às meninas e incentivando que elas ingressem”, explica.

O centro acadêmico que ela preside conta com uma Comissão Contra Opressão, que é um elemento comum à maioria dos outros CA. Estas comissões são formadas por alunos que pertencem às minorias sociais, e além de funcionarem como um canal para denúncias, demandas, e apoio no dia a dia, participam das festas e reforçam a segurança de minorias.

“Mulheres muitas vezes têm demandas específicas, que costumam ser relacionadas à segurança no campus ou nas festas.” Kamila, da Mecatrônica de São Carlos, diz que a secretaria acadêmica que coordena já ofereceu palestras de defesa pessoal para mulheres.

Ela considera que as redes de apoio são fundamentais para melhorar a experiência universitária das alunas. “A nossa secretaria tem uma coisa de família. Para mim ela significa um espaço em que eu não vou precisar me preocupar em ser subestimada ou rebaixada, é um lugar onde vou ser vista pelo que sou.”

Além do grupo da gestão da entidade estudantil, ela conta que as mulheres do seu curso costumam se unir, mesmo que as amizades mais fortes sejam com homens. “Para apoio feminino a gente está sempre presente. Temos grupo só de mulheres, e lá discutimos muitas coisas, desde tirar dúvidas de como achar coisas em São Carlos, mandar foto para perguntar se a roupa que queremos usar para sair está boa, até segurança. As meninas costumam ficar unidas em festas também, é algo meio orgânico.Amanda Xavier Paschoeto diz que os grupos só para mulheres também são estratégia na EEL, e que o Coletivo Feminista tem uma atuação importante. “Sinto que aqui nós temos uma boa rede de apoio, e que ela vem melhorando muito nesses últimos anos. Sabemos que precisamos sempre levantar o diálogo, expor situações, levantar nossa voz. Às vezes a gente não percebe que um assunto existe porque ele não é levantado em pauta e acontece de uma forma velada. E a partir do momento que isso é posto em discussão, as pessoas passam a refletir e começam a mudar suas atitudes.”

Para Beatriz, presidente do Grêmio Politécnico, as relações com outras mulheres ajudaram a se sentir pertencente à Poli. “Foi muito importante ter amizades femininas. O começo do curso foi bem difícil, e o que me ajudou foi o time de handebol feminino, de onde veio a grande maioria das minhas amizades. Foi uma forma que eu encontrei para lidar com isso de ser minoria na Poli. Me envolvi nessas iniciativas femininas, primeiro no handball, depois entrei em grupo de extensão e por fim no Grêmio.”

Helena Peres, que preside a Sameca, entidade que representa os estudantes de Engenharia Mecânica em São Carlos, conta que foi criada uma secretaria especial voltada às mulheres, a SAMEninas.

Para além dos materiais de divulgação e discussão, como um podcast que produzem, e os eventos com engenheiras palestrando, o grupo quer atender outras demandas específicas das mulheres, como produtos e roupas. “Como somos poucas, os produtos produzidos na engenharia, aqueles que criam identificação do aluno com o curso, são muito voltados para os homens. As meninas ficavam desassistidas. Agora temos mulheres produzindo roupas e acessórios para mulheres” Ela considera que a criação da secretaria especial foi um marco no curso e acredita que é preciso continuar promovendo ações de estímulo ao ingresso e permanência das mulheres nas ciências exatas. “Queremos criar um ambiente de acolhimento e integração. Nós somos capazes de conquistar tudo que nós quisermos, falta apenas estímulo.”

Fonte: Jornal da USP