“Estamos trabalhando por sobrevivência”, conta coordenadora do Fundo de População da ONU em Manaus

Há dois anos, Débora Rodrigues fazia estágio em uma agência das Nações Unidas (ONU) em Viena, na Áustria, e não conseguia imaginar onde o destino a levaria. A vontade de trabalhar com direitos humanos foi o que motivou a jovem, então com 29 anos, a se candidatar a uma vaga no Fundo de População das Nações Unidas no Brasil (UNFPA), sem saber muito bem o que esperar. Aprovada no processo seletivo, ela não pensou duas vezes ao pegar a mala e cruzar o mundo até o extremo norte do país de distâncias continentais: lotada primeiro em Pacaraima, Roraima, e depois em Manaus, no Amazonas, ela passou por um processo de transformação total. “Sou outra pessoa. Mas me sinto realizada e acredito no que faço”, resume.
Em Manaus, Débora está à frente da equipe de assistência humanitária do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), agência do Sistema ONU para saúde sexual e reprodutiva. Com a pandemia, o trabalho de toda a equipe, de seis pessoas, se tornou mais intenso.
Coordenando a resposta do UNFPA junto às pessoas migrantes e refugiadas, com ênfase na promoção da saúde sexual e reprodutiva e na prevenção da violência baseada em gênero, a mineira não imaginou que teria que enfrentar uma emergência dentro da emergência.
No último dia 15 de janeiro, com o colapso do sistema de saúde e a escassez de oxigênio na capital manauara, Débora liderou o time que articulou a pronta e efetiva resposta do UNFPA, apoiando a Secretaria Municipal de Saúde com a entrega de 60 cilindros de oxigênio à maternidade Moura Tapajós. De acordo com ela, a situação é complexa e o Fundo de População das Nações Unidas estuda também apoio às maternidades estaduais, com as quais já dialoga desde o início do trabalho na região
“A situação não está resolvida. O que chega de oxigênio não é suficiente para a demanda. Estamos trabalhando por sobrevivência, dia após dia”, explica Débora. “As maternidades contam com muitos bebês prematuros, inclusive com COVID-19, que precisam de oxigenação, além das mulheres grávidas com COVID e do oxigênio necessário para os procedimentos obstétricos”, relata.

Débora acompanhou pessoalmente a entrega dos 60 cilindros de oxigênio, junto à equipe do Serviço de Atendimento Médico de Urgência (SAMU) da secretaria. Ela esperou a chegada dos equipamentos por cinco horas e se certificou de que tudo fosse entregue corretamente. Quando chegou em casa, o cansaço fazia com que suas costas doessem. O sentimento, entretanto, era de dever cumprido -- ao menos naquele momento.
“Estamos trabalhando em duas frentes. Mobilizando recursos para uma ajuda mais ampla e com o apoio pontual no fornecimento e reposição de cilindros”, explica, trabalhando em contato direto com a representação do Fundo de População das Nações Unidas em Brasília.
Débora se define como uma pessoa “corajosa, mas cautelosa”. “Estou sempre de máscara, evito aglomerações e sou muito cuidadosa no trabalho em campo”, conta. A coordenadora do escritório em Manaus afasta qualquer tentativa de ser definida como heroína, mesmo agora. “As pessoas acham que nós, trabalhadores humanitários, somos heróis, e é muito fácil embarcar nessa narrativa. Mas eu procuro o caminho inverso”, explica. “Sou parte de uma engrenagem maior e tenho orgulho do meu trabalho. Mas sou apenas humana”, conclui.
Emergência - O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), agência do Sistema ONU para saúde sexual e reprodutiva, adquiriu na noite da última sexta-feira (15), 60 cilindros de oxigênio, em resposta ao pedido da Secretaria Municipal de Saúde de Manaus para o atendimento de bebês e mulheres internadas na maternidade Moura Tapajoz, em decorrência da escassez de oxigênio devido ao avanço da COVID-19. Trata-se de ação emergencial complementar à atuação que o UNFPA já tem empreendido no Amazonas e em outras quatro unidades da federação desde o início da pandemia.
Fonte: 0NU




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