Dark Horse na mira: Polícia Federal aperta o cerco sobre dinheiro e conexões do clã Bolsonaro
PF cumpriu 49 mandados e teve Mario Frias entre os alvos; investigação apura suspeitas de desvio de emendas parlamentares e movimentações milionárias ligadas ao entorno do filme

A Polícia Federal (PF) deflagrou, nesta quinta-feira, 10, a Operação Make Up para apurar suspeitas de desvio de emendas parlamentares para financiar o filme “Dark Horse”, produção sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A PF cumpriu 49 mandados de busca e apreensão. Nas redes sociais, membros da bancada do Partido dos Trabalhadores (PT) na Câmara dos Deputados se manifestaram sobre a ação policial.
O financiamento de “Dark Horse” também é investigado em outra frente, que apura os repasses do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato da extrema direita à Presidência da República e filho mais velho de Jair Bolsonaro, foi exposto negociando mais de R$ 130 milhões com Vorcaro para financiar o filme. Flávio afirma que os esclarecimentos sobre o destino dos recursos cabem à produtora, mas seguem sem resposta questões sobre os pagamentos e seus vínculos com o banqueiro, preso preventivamente desde março.
O deputado federal Mario Frias (PL-SP), aliado próximo de Flávio, a produtora Karina Gama e outras 27 pessoas foram alvos da operação. Embora a empresa encarregada do filme, a Go Up Entertainment, não seja objeto dos mandados, duas outras entidades comandadas por Karina foram alvo de buscas da PF: o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC).
Em um dos endereços ligados a um dos advogados de Frias, os agentes encontraram sete armas de fogo registradas em nome do deputado: ao todo, foram apreendidas cinco pistolas, uma espingarda e um fuzil. Como estavam em local diferente do registrado, a PF investiga possível posse ilegal de armas.
O caso está sob relatoria do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), e envolve a destinação de R$ 2 milhões em emendas parlamentares pelo parlamentar bolsonarista a entidades ligadas a Karina. A investigação teve origem em São Paulo e foi remetida ao STF.
‘Agente central’
Na decisão de Dino, a PF aponta Frias como “agente central” do suposto esquema de desvio de emendas parlamentares. Segundo a investigação, o deputado do PL usou R$ 154 mil da cota parlamentar para pagar a empresa Complexsys Soluções Integradas Ltda.
A Complexsys também recebeu cerca de R$ 9,9 milhões, entre outubro de 2024 e abril de 2026, do ICB. Esses repasses decorreram da subcontratação da empresa pela entidade para prestar serviços de instalação de pontos de wi-fi para a Prefeitura de São Paulo.
De acordo com a Complexsys, os recursos recebidos do ICB foram usados somente no contrato para manutenção da rede de wi-fi em São Paulo. A empresa disse ao site UOL que não há “qualquer vínculo” com o financiamento da produção de “Dark Horse”. “A perícia independente, já anexada nos inquéritos policiais, também comprova que não existe nenhuma relação entre o contrato da empresa com a produtora Go Up”, argumentou.
Na avaliação da PF, reproduzida na decisão de Dino, o possível desvio de emendas parlamentares e as supostas fraudes no contrato de wi-fi na capital paulista apresentam indícios de uma “única organização criminosa, estruturada para captar, disseminar e ocultar recursos provenientes de verbas públicas”. O magistrado também determinou o levantamento do sigilo da decisão que autorizou a operação.
O que diz a PF
Em nota, a PF informou que as ações foram conduzidas “para apurar suposto desvio de recursos públicos oriundos de emendas parlamentares repassadas, por meio de termo de fomento, à organização da sociedade civil”.
“As investigações apontam para a existência de uma organização criminosa, formada por agentes públicos e privados, suspeita de direcionar os valores recebidos para empresas subcontratadas de forma irregular, sem comprovação da efetiva prestação dos serviços contratados.” Segundo a PF, as tentativas de dissimular os desvios teriam se estendido até julho de 2026.
A nota conclui: “Levantamentos financeiros identificaram, ainda, movimentação da ordem de centenas de milhões de reais entre as empresas que integram o esquema investigado. São investigados os crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios”.
Cerco ao clã Bolsonaro
O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) cobrou o avanço das investigações sobre a família Bolsonaro. Em outra frente de apuração sobre o financiamento do filme, a PF investiga se parte dos recursos enviados por Vorcaro ao exterior teria beneficiado o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro. Ele se mudou para os Estados Unidos em março de 2025, onde passou a agir para que o governo do presidente Donald Trump aplicasse sanções contra o Brasil.
Eduardo perdeu o mandato na Câmara dos Deputados, em dezembro de 2025, por excesso de faltas, e foi condenado à prisão pelo STF, em junho de 2026, por coação no curso do processo, em razão de sua atuação para interferir no julgamento da trama golpista.
“A Polícia Federal faz operação contra o esquema milionário envolvendo o filme ‘Dark Horse’, financiado com dinheiro de Vorcaro para Flávio e Eduardo Bolsonaro. São 49 mandados de busca e apreensão. Agora é chegar em todos os envolvidos! PF neles!”, publicou Lindbergh no X.
Já o deputado federal Rogério Correia (PT-MG) ironizou o fato de a PF estar batendo à porta dos aliados de Flávio Bolsonaro. “Toc, toc, toc”, escreveu.
“A Polícia Federal tá na área! Esse rolo do ‘Dark Horse’ vai ser finalmente investigado. É muito dinheiro para um filme sobre o pai, não é não?”, questionou Correia.
Por sua vez, o deputado federal Zeca Dirceu (PT-PR) disse que Frias e Flávio utilizam os mandatos parlamentares para defender interesses privados. “Ninguém pode usar um mandato, seja de deputado federal, como fez Mário Frias, ou de senador, como fez Flávio Bolsonaro, para o seu interesse pessoal, para o interesse da sua família. Isso é crime”, apontou.
Fonte: Da Rede de Comunicção do PT




Comentários