top of page
Buscar

Entrevista | "A Venezuela seria um Vietnã se os EUA nos atacassem", diz Maduro


Maduro chegou ao seu segundo mandato enfrentando a pressão internacional lidera pelos EUA que, para o mandatário, busca promover um golpe / Federico Parra /AFP

Enfrentando a pior crise desde que assumiu a presidência da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro considera que a tentativa da direita de formar um governo paralelo no seu país é expressão do conflito entre a independência e a soberania da Venezuela e a intenção imperialista estadunidense de recolonizar essa nação.

Em entrevista exclusiva com o jornal mexicano La Jornada, o presidente bolivariano negou que a Venezuela seja uma ditadura, com violação dos direitos humanos e crise humanitária. Segundo ele, os políticos que hoje estão presos são os organizadores de um golpe de Estado violento, que assassinaram, queimaram pessoas vivas e destruíram propriedades. Ele assegura que a maioria massiva dos meios de comunicação está nas mãos de empresas privadas que se opõem ao governo. E a chamada “crise humanitária” seria um show montado pelo Comando Sul dos Estados Unidos para justificar uma intervenção militar.

Nicolás Maduro acredita que caso os Estados Unidos aposte por intervir militarmente em seu país, um novo Vietnã será criado na América Latina. Ele assegura que a Venezuela está moralmente pronta para responder aos ataques, que seu Exército está unido e aliado ao povo. Os ataques de Trump, diz, buscam apropriar-se do petróleo venezuelano.

A seguir, a versão completa da entrevista com Maduro realizada no Palácio Miraflores, sede do governo Bolivariano da Venezuela, no dia 5 de fevereiro.

La Jornada: Presidente, nesta terça-feira (05) soubemos que você enviou uma carta ao Papa Francisco propondo que ele estivesse presente na mediação do conflito. O que mais você dizia nessa carta?

Nicolás Maduro: Primeiro, que eu agradecia pelas orações permanentes pela paz na Venezuela e pedia que nos ajudasse a facilitar um diálogo nacional. O Vaticano já nos ajudou em uma das fases em 2016, o que quer dizer que conhece bem o terreno aqui na Venezuela. Acredito que a autoridade moral do Papa pode contribuir muito para um diálogo que seja construtivo, de agenda aberta. Espero que ele responda em breve.

No entanto, a Assembleia Nacional disse que rejeita “todo e qualquer diálogo ou grupo e contato que prolongue o sofrimento do povo”. Ou seja, desqualifica qualquer possibilidade de diálogo.

Sim, a direita venezuelana golpista rejeitou os mecanismos de diálogo que a comunidade internacional está divulgando. Há alguns dias, o governo dos Estados Unidos, de Donald Trump, já tinha dito: não ao diálogo. É uma posição irracional, insensata. É uma posição antinatural porque o natural na política é o diálogo, a palavra, a conversa. Eu insisto: sim ao diálogo, sim ao diálogo. E antes tarde do que nunca, com a ajuda do governo do México, do Uruguai, dos catorze governos da Comunidade do Caribe (CARICOM), da Bolívia, do grupo de contato da Uniao Europeia – e também do Vaticano, tomara – vamos sentar em uma mesa de diálogo. Tenho certeza que será assim.

Qual sua opinião sobre a atitude e a posição do governo mexicano?

O governo mexicano teve uma atitude diplomática correta, que é respeitar a Venezuela, não intervir nos assuntos internos. E o presidente López Obrador resgatou o espírito da Constituição mexicana e sua tradição diplomática, tão admirada no mundo, de não-intervenção, de diálogo. Acredito que o governo está cumprindo um grande papel neste momento histórico.

Como justificativa da ofensiva contra seu governo, afirmam que na Venezuela há uma violação dos Direitos Humanos, que as pessoas são perseguidas, que te presos políticos, que não tem liberdade de expressão. Relatórios de diversos organismos de Direitos Humanos internacionais documentam alguns destes apontamentos. Isso é verdade?

Nos 20 anos de Revolução, estamos sendo vítimas de uma ataque permanente por parte dos Estados Unidos e seus aliados internos. Em particular, nos seis anos do meu primeiro governo, fui vítima de várias atentados violentos que queriam levar o país a uma guerra civil e derrubar o governo. Um deles foi em 2014. Outro em 2017, com as chamadas guarimbas(bloqueios violentos em ruas e estradas). Sofri vários atentados. Em agosto de 2018, planejaram um atentado direto contra mim através de drones.

A justiça venezuelano atuou e os responsáveis pelo assassinato de várias pessoas, pela violência e pela destruição física das cidades, estão presos. Também estão presos os responsáveis direto da tentativa de assassinato. A verdade é que são pessoas que cometeram crimes contra outras, contra a propriedade, que tentaram derrubar o governo legítimo.

De todo modo, aqui na Venezuela existe uma Comissão da Verdade e da Justiça que tem a investigação de todos esses crimes, de toda esta situação. Recentemente, essa comissão emitiu um conjunto de decisões, de ordens e algumas dessas pessoas envolvidas nesses crimes receberam benefícios processuais. Estão em liberdade. Aqueles que estão detidos são os que cometerem crimes de homicídio, que queimaram pessoas vivas. Os responsáveis de crimes graves são os que ainda estão nas mãos da justiça.

Eles também que a Venezuela é uma ditadura, que não existe liberdade, que a imprensa está controlada pelo Estado. Isso é verdade?

Eu posso te fornecer vários dados sobre as amplas liberdades que existem na Venezuela. Primeiro, a situação das emissoras nacionais. 75% são privadas e eu posso dizer que todas as emissoras privadas do país são opositoras. Da imprensa escrita, 80% das publicações nacionais e regionais são privadas e todas pertencem à oposição. Mais de 70% das rádios do país estão em mãos de empresas privadas e todas são da oposição.

As redes sociais são controladas internacionalmente. Na Venezuela, existe Twitter, Instagram, YouTube, Facebook, Whatsapp. Todo mundo usa. E posso dizer que 80% da publicidade e da informação que corre diretamente em todas as redes sociais é aberta e totalmente de oposição.

Dizer que a Venezuela é uma ditadura é uma ofensa ao povo venezuelano. A Venezuela tem um nível educacional, cultural, uma maturidade democrática suficiente. Para observar isso, basta visitar qualquer povo ou cidade e ver o debate permanente que há na Venezuela. Em todo caso, a acusação da ditadura faz parte do roteiro que o império estadunidense sempre utilizou para etiquetar, estigmatizar os países independentes, os governos que não os obedecem. Serve para justificar qualquer coisa: um golpe de Estado, um magnicídio [assassinato de chefes de Estado], uma invasão.

Simplesmente, a acusação de que a Venezuela é uma ditadura faz parte dos falsos estigmas com os quais eles taxaram a Revolução Bolivariana.

Dizem que na Venezuela existe uma crise humanitária de grandes proporções, que há fome, falta de abastecimento de medicamentos, que há migração de venezuelanos não só para a Espanha ou Miami, mas a uma grande quantidade de países da América Latina, uma sangria constante. É verdade que existe essa crise humanitária?

A crise humanitária é uma farsa. A Venezuela tem problemas como qualquer outro país. Ou melhor, em muitos casos, não temos alguns problemas que os países onde o neoliberalismo governa têm. Mas toda a montagem da crise humanitária vem do Comando Sul dos Estados Unidos desde 2014. Para que empurrar uma crise humanitária fabricada pelos meios de comunicação? Para justificar uma “intervenção humanitária”, assim, entre aspas.

A Venezuela tem altos índices de empregabilidade. No final do ano passado, o índice de desemprego estava em 6%. 60% do emprego na Venezuela é formal, protegido, nisso avançamos. A Venezuela tem um sistema de previdência que protege 100% dos aposentados e pensionistas. A Venezuela tem mais do que 90% de escolaridade em educação básica, média e universitária. 80% da nossa educação é pública, gratuita, de qualidade.

A Venezuela tem o chamado CLAP (Comitês Locais de Abastecimento e Produção) que chega a 6 milhões de casas, a 24 milhões de venezuelanos. A alimentação é permanente e, segundo a FAO, temos altos níveis de nutrição.

A Venezuela também tem um programa chamado “Bairro adentro na saúde” que leva mais de 30 mil médicos às comunidades. Você, no seu bairro, na sua comunidade, tem um médico, tem acesso à medicina. Nos últimos três anos, por causa das sanções, tivemos problemas para importar alimentos, para importar medicamentos. Sim, tivemos, mas já estamos resolvendo de forma efetiva. Mas uma crise humanitária não existe e nem vai existir na Venezuela.

Você tem denunciado que por trás da tentativa de impor um presidente interino estão as mãos dos Estados Unidos. Por que você diz isso? Quais são as evidências?

Bom, porque a atitude do governo dos Estados Unidos de chamar a derrocada do governo constitucional que presido é aberta e vulgar, desde que chegaram os extremistas de Donald Trump à Casa Branca, sobretudo. É uma etapa de enfrentamento total, de sanções, de perseguição financeira, de um golpe de Estado militar, de conspiração direta na embaixada gringa da Venezuela.

Donald Trump está obcecado pela Venezuela. Sua equipe poderia ser chamada de equipe Venezuela. John Bolton, seu Conselheiro de Segurança, Mike Pompeo, seu Secretário de Estado e Mike Pence, seu vice-presidente, poderiam ser chamados de equipe Venezuela. Todos os dias tuítam, escrevem, declaram, convocam o golpe de Estado abertamente. Eles nem dissimulam.

Recentemente, o Wall Street Journal publicou a informação de como este tema, de tentar de impor um governo paralelo, um governo falso, foi planejado a partir dos EUA. E foi planejado em Washington, foi financiado lá, imposto a partir de lá. Meses antes, em setembro, o New York Times e o Washington Post divulgaram as evidências da participação do governo dos Estados Unidos, diretamente da Casa Branca, em uma tentativa de golpe militar entre março e abril, que nós neutralizamos e derrotamos. Eles deram dados de quem conspirou, quem pagou, onde. Esses testemunhos e declarações são elementos suficientes da obsessão imperialista que os EUA têm.

No domingo passado, Donald Trump ameaçou invadir a Venezuela mais uma vez, ameaçando mandar seu exército para a Venezuela. E eu venho me perguntando: qual é o casus belli [fato ofensivo pelo qual se decara uma guerra]? A Venezuela não tem armas de destruição em massa apontadas para os Estados Unidos. Não, seu casus belli é o petróleo venezuelano, a riqueza da Venezuela. E em 20 anos não puderam derrotar a Revolução Bolivariana por nenhuma via. Nem pela via eleitoral, pela via política, diplomática, nem por golpe de Estado.

Eu acredito que o governo dos Estados Unidos está entrando em uma fase de muito desespero e está cada vez mais perigoso. Então a consciência solidária do mundo, das pessoas que querem paz, que querem impedir que um novo Vietnã aconteça, desta vez na América do Sul, é muito importante. A Venezuela se tornaria um Vietnã se um dia Donald Trump mandasse o exército dos Estados Unidos nos atacar.

Vocês estão preparados para uma intervenção militar estadunidense?

A Venezuela está moralmente preparada para rejeitar as ameaças do uso da força. E nós, nossa Força Armada Nacional Bolivariana, nossa cidade bolivariana, nosso sistema de armas e nosso povo, uma união cívico-militar, estamos preparados a partir do conceito de guerra de todo o povo, de guerra de resistência, para dar uma resposta contundente a qualquer possibilidade de ataque militar.

Mas esperamos que nunca aconteça. Esperamos que se imponha a verdade da Venezuela, a via diplomática, e que a consciência de paz do povo dos Estados Unidos vença a vontade e a loucura de Donald Trump. Esperamos que reine a paz. Mas, enquanto isso, nos preparamos para defender nossa terra sagrada, como todo mundo defenderia.

Você informou que conta com brigadas que agrupam 2 milhões de integrantes. Essas brigadas têm uma organização territorial? Eles têm controle direto das armas ou receberam formação militar?

Sim, nós temos a Força Armada Nacional Bolivariana, composta por quatro frentes. O Exército Bolivariano, com uma distribuição territorial e um sistema de armas muito poderoso. A Armada Bolivariana, que também teve seu sistema de armas fortalecido. A Aviação Militar Bolivariana, também com sbm sistema para cuidar do nosso país, e a Guarda Nacional Bolivariana, que é uma força de ordem pública. E, além disso, o comandante Chávez criou a Milícia Nacional Bolivariana [brigada popular formada por civis], como um quinto elemento que fortalece e integra os quatro componentes constitucionais.

As brigadas reúnem atualmente 1,6 milhão de cidadãos e cidadãs. No dia 13 de abril deste ano, vamos chegar a 2 milhões. Elas estão organizadas em unidades de defesa popular, que agrupam 20 ou 30 brigadistas por território, onde eles têm treinamento militar, plano operacional, sabem o que fazer em qualquer cenário. Além disso, têm acesso, e cada vez terão mais acesso, ao sistema de armas nacional. Isto quer dizer que a Venezuela conta com 2 milhões de brigadistas integrados para uma guerra de resistência, uma guerra de todo o povo, que tornaria um inferno a vida da força invasora que queira se meter na Venezuela.

Nós queremos paz. Toda a nossa Força Armada e nossa brigada têm uma só palavra de ordem: ganhar a paz. Nossa vitória é paz e assim seguiremos.

A oposição te acusa de ter grupos paramilitares. Segundo eles, os coletivos são grupos armados civis a serviço do chavismo. Isso está certo?

Os chamados Coletivos são uma forma de organização popular voluntária, muito própria da Revolução bolivariana. São uma forma extra-partidária de movimento popular. São milhares na Venezuela. Organizam as pessoas ao redor de algum objetivo. A maioria dos Coletivos do país estão na área produtiva, empresarial, agroprodutiva, onde produzem toneladas de alimentos. Ou estão na área da cultura, da resistência cultural, da música, da arte, do muralismo. E também na área política.

A direita tem muito medo dos Coletivos porque são grupos muito organizados, muito radicais. São pessoas muito honestas. Quiseram estigmatizá-los como paramilitares, mas é totalmente falso. Isso não quer dizer que não exista um coletivo que estimule o treinamento para a defesa nacional. Com certeza existe um ou dois desses grupos por aqui. Mas o fundamento dos Coletivos é ser uma forma de organização do movimento cultural.

E a direita, tem grupos paramilitares?

A direita teve grupos violentos, os que comandaram as guarimbas. Durante os últimos anos, esses grupos tentaram atacar os quartéis. Eles também têm grupos que declaram, através das redes sociais, ter armas, escondem os rostos e dizem estar já em uma frente de guerra, prontos para uma guerra civil. Mas a direita não conseguiu, com esses grupos, perturbar a vida e a paz interna do país, mas assim declaram. São elementos de risco que é preciso saber controlar.

Vocês consideram a atual tentativa de golpe de Estado como uma disputa pela soberania nacional contra a intervenção imperialista. No entanto, alguns consideram o conflito como uma briga entre potências. Asseguram que atrás do seu governo estão a China e Rússia, que pretendem estabelecer uma cabeça-de-praia na América Latina. É correta essa interpretação? Esse é um esquema de interpretação próprio da Guerra Fria, onde todos os conflitos pareciam ter por trás a confrontação entre a União Soviética e os Estados Unidos. Mas não é nosso caso. O conflito venezuelano tem 200 anos. Existe antes que existisse a União Soviética ou a Federação Russa, ou que existisse a República Popular da China. Vem desde [Simón] Bolívar.

Esse é o conflito entre as ideias independentistas da liberdade e da soberania de nossos libertadores contra as ideias imperialistas. Se você revisar a ideologia, a prática política dos libertadores, de Bolívar, vai encontrar um bloco de nações livres, independentes, que não oprimiram nenhuma nação do mundo e que construíram seu próprio modelo político, social, econômico, cultural. Por outro lado, se revisar o projeto, a forma, a prática daqueles que fundaram os Estados Unidos, das antigas 13 colônias, vai ver como eles herdaram de maneira direta toda a visão imperial britânica. Nunca ajudaram na independência do Sul.

Estiveram contra a luta da Independência. Ainda mais, venderam armas, apetrechos e apoiaram o Exército imperial espanhol contra os libertadores.

É um conflito em uma história que vem de longe, de 200 anos atrás. Nós dizemos hoje que o conflito nosso é entre a independência da Venezuela, a soberania da Venezuela, e tentativa de recolonização do império estadunidense. O centro do conflito é o de uma nova independência da América Latina versus a tentativa de dominação e de um novo escravismo contra nosso povo.

Qual o seu plano para enfrentar o atual conflito? Parece que o que a direita quer hoje, além de estabelecer um governo paralelo e ganhar a legitimidade no terreno internacional, é montar uma provocação acerca da ajuda humanitária que justifique uma intervenção militar estrangeira. Quais são os passos que vocês estão planejando para evitar um cenário desse tipo?

Nossos passos estão vinculados à Constituição. Nosso roteiro é a Constituição. Em primeiro lugar, governar o país, atender os problemas do nosso povo, executar o Plano da Pátria 2019-2025 em todas as áreas. Hoje, lançamos a Grande Missão Transporte Venezuela. Uma grande missão que pretende transformar todo o sistema público de transporte do país.

Segundo, defender a paz, a paz com a justiça, digo eu, a paz com igualdade, a paz com independência. E impulsionar todas as formas de diálogo político e negociação política, para estabelecer uma paz duradoura.

Em terceiro lugar, manter a união cívico-militar. Nossa fortaleza é nossa força armada, nossa cidade bolivariana e sua capacidade unitária para administrar a defesa nacional.

Em terceiro lugar, manter a união cívico-militar. Nossa fortaleza é nossa força armada, nossa cidade bolivariana e sua capacidade unitária para administrar a defesa nacional.

Em quarto lugar, nos defender diplomática, política, midiaticamente, de todas as agressões do governo imperialista de Donald Trump. A operação chamada “ajuda humanitária” é um show, um show barato, um show ruim. Pode ter certeza de que não vão perturbar a Venezuela. Esses shows vão sendo diluídos, vão se dissolvendo com a realidade venezuelano.

Há risco de uma ruptura do Exército?

Investiram milhões de dólares para dividir a Força Armada Nacional Bolivariana. Eu posso te dizer, estando em contato direto com os soldados venezuelanos, que hoje estão mais unidos do que nunca. Não vão romper.

O que seu governo fez de ruim?

Muitas coisas. Nós temos uma grande capacidade de autocrítica. Acreditamos que a autocrítica e a crítica são a pedagogia política mais importante para aprender da experiência.

Nós fazemos um grande esforço pelo nosso país. Um esforço diário, permanente, com muita honestidade. Mas ainda falta muita coisa. Cometemos erros na política cambiária que levaram a empossar o dólar criminoso, o dólar paralelo, que é fixado a partir de Miami, da Colômbia. Estamos retificando muitos elementos dessa política.

Em alguns casos, abandonamos a liderança diária dos temas populares. Devemos investir mais na construção do movimento popular, do poder popular, dos conselhos comunitários.

Atender a base diretamente. Atender os problemas da gente, escutar o povo, impulsionar o movimento de assembleias, fazer uma revisão permanente. Talvez aí cometemos erros, produto da mesmo conflito que enfrentamos.

Tem muitas coisas que precisamos retificar todos os dias. A luta contra a negligência, o burocratismo, a corrupção, é dura, é amarga, é muito complexa. Ninguém pode vir me dizer que porque alguém diga que vai lutar contra a corrupção e isso é executado. Não, a corrupção tem mil caminhos para se recompor. Às vezes você nomeia um grande companheiro em um cargo, que serviu na luta política, na mobilização social, e termina aprodrecendo no cargo. Acaba sendo mais corrupto do que algum mafioso que você retiraria desse cargo.

A luta contra a corrupção é uma luta tremenda, é uma luta sem fim e estamos realizando com muita precisão. Tenho a sensação de que nos meses que estão por vir isso vai ter um grande resultado na realidade política do país.

O último documento do presidente Chávez antes de morrer, “Golpe de timão”, apostava a fundo pela construção do poder popular. Você diria que o governo de Nicolás Maduro seguiu essa orientação?

Eu acredito que sim, caminhamos junto com o poder popular venezuelano. Decidimos ativar mais de 50 mil conselhos comunitários que reúnem 80, 100, 120 famílias cada um, às vezes um pouco mais. Conseguimos articular 3.100 comunas de uma instância superior de organização social, econômica, política da comunidade. Reúnem uns 2 milhões de venezuelanos. Conseguimos resolver o tema do abastecimento de alimento através dos conselhos comunitários, criando os Comitês Locais de Abastecimento de Produção. Se

não existisse poder popular, seria impossível resolver este assunto e outros.

Agora temos muito para fazer. Não é verdade que só porque alguém convoque a organização do poder popular, que isso se organize sozinho. Não. É preciso muito esforço, bater nas portas, motivar, educar, levar o povo, atender seus problemas, dar poder verdadeiramente ao homem, à mulher, ao cidadão, à cidadã.

Eu diria que o grande desafio da esquerda no mundo é construir verdadeiras bases populares, poder popular verdadeiro. Porque, às vezes, a esquerda cumpre com suas lutas políticas, com seu lema, mas se esquece que a política não pode ser aérea. A política precisa de raízes. É preciso ter sempre os pés no chão.

A Revolução Bolivariana, no mandato do comandante Chávez, nos deu o lema: comuna ou nada. Aí está a dicotomia. Ou vamos pelo caminho da comuna do poder popular, da raiz real do povo ou ficamos com nada.

Você gosta muito de história, do cinema – dirigiu o cineclube de Caracas antes de fazer política institucional – e a música. Como você resumiria esta situação atual em um evento histórico, em um filme e uma canção?

Seria: “A batalha pela Venezuela”. E a canção é uma canção de salsa do Ray Barretto, que eu gosto muito, que se chama “Indestrutível”. Procure nas redes sociais. Como nessa canção, eu sinto “Com sangue novo, indestrutível/ Ah, unidos venceremos e eu sei que chegaremos”.

Presidente: você quer dizer mais alguma coisa?

Quero agradecer muito ao México pela sua nobreza, pela sua solidariedade. Que se transforme em um poderoso movimento em solidariedade que diga a Trump: Não à intervenção militar na Venezuela. Queremos paz na Venezuela! Precisamos do apoio do povo mexicano para que a paz vença e acabem os gritos de guerra contra nosso país.

Edição: La Jornada | Traducción: Luiza Mançano - Foto:

bottom of page