Buscar

Livro analisa o golpe contra a democracia e contra Dilma


Com organização de Ivana Jinkings, Kim Doria e Murilo Cleto, Boitempo Editorial acaba de lançar o livro “Por que gritamos golpe – Para entender o impeachment e a crise política no Brasil”, em que 30 autores analisam o movimento golpista que botou no poder – de forma interina – o presidente ilegítimo Michel Temer.

Os textos são assinados por personalidades como o cientista político André Singer, a ativista, filósofa e secretária-adjunta da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, Djamila Ribeiro, o político Ciro Gomes, a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ), o senador Roberto Requião (PMDB – PR), o sociólogo Ruy Braga e o também sociólogo e ex-ministro da Cultura Juca Ferreira.

A publicação é dividida em três partes: Os Antecedentes do Golpe, O Golpe Ponto a Ponto e O Futuro do Golpe. O livro faz parte da coleção Tinta Vermelha da Boitempo, que aborda temas políticos e sociais sob perspectivas variadas.

A Agência PT conversou com um dos organizadores, Murilo Cleto, que é historiador, professor das Faculdades Integradas de Itararé e colunista da Revista Fórum. Para ele, que também assina um dos textos do livro, uma das piores consequências do golpe é a perda da importância do voto. “Se o golpe for confirmado, acredito que a pior herança é, dentre todas, a descartabilidade do voto. São 54 milhões jogados no lixo”.

Ele também conta sobre a produção do livro, a crise política e sentencia: “O golpe se mostrou real quando Temer ganhou os donos do PIB e a classe política com uma agenda que jamais teria o aval das urnas”.

Leia a entrevista abaixo:

Por que lançar um livro sobre o golpe com o golpe ainda em andamento?

Essa é uma questão importante. Acredito que, independentemente do resultado, que na verdade só deve ser confirmado em breve no Senado, o processo de impeachment expõe as vísceras do poder no Brasil. Por exemplo, ficou muito claro que o presidente do País está, acima de tudo, mais submisso ao Congresso Nacional do que ao próprio povo. Quando Dilma perdeu o legislativo, perdeu o governo. É preciso refletir sobre o significado disso em um País em que o golpe e o autoritarismo são a regra.

Murilo Cleto, organizador do livro “Por que gritamos golpe” (foto: divulgação)

O que une todos os 30 autores?

Trata-se de um leque muito grande de autores. São correntes e orientações muito diferentes. Em comum, todos têm a percepção de que este governo provisório é ilegítimo e que saídas à esquerda são urgentes se queremos um projeto mais democrático de país.

Explique a ideia de dividir o livro entre antes, durante e depois do golpe.

A divisão tem o objetivo de organizar a leitura em, primeiro, expor as condições em que o golpe se desenvolveu. Ou seja, as raízes da grave crise que o País atravessa e que contribuiu para a rasteira do PMDB. Segundo, os autores falam sobre o golpe ponto a ponto e o desmonte do Estado nas suas mais diversas áreas, como educação, cultura, campo, moradia. A terceira parte é dedicada a refletir sobre o que deve vir depois do processo de impeachment. Há muito das perspectivas do País. É claro que as seções se cruzam, mas a estrutura é basicamente essa.

Por que você considera um golpe? Há dois pilares que sustentam, para mim, o discurso do golpe – apesar de considerar válidas as pontuações que afastam 2016 e 1964 e, em um certo sentido, contribuírem para uma perigosa ausência de avaliação do governo deposto. O primeiro pilar é a postura da oposição a partir da reeleição de Dilma. O PSDB não teve a grandeza nem de reconhecer o resultado das eleições, pedindo auditoria dos votos para alimentar a sensação de que as urnas estariam fraudadas. Isso é muito baixo. O Brasil tem um dos sistemas eleitorais mais independentes e transparentes do mundo. É alimentar o que existe de pior nas redes sociais. Depois veio a ideia do impeachment, mesmo sem denúncia nenhuma contra a presidenta no exercício das suas funções, que é como prevê a Constituição. Depois, veio a tentativa de cassação pelo TSE. E, foi só o Aécio despencar nas pesquisas que o PSDB decidiu embarcar no governo. Veja, num governo que ele mesmo tenta derrubar na justiça, já que a cassação pela via eleitoral é da chapa Dilma-Temer. Então ficou muito claro que o criminoso veio muito antes do crime, e tanto pedaladas quanto créditos suplementares foram só o pretexto que a classe política encontrou para desfazer um elo que se descartou. O Ciro Gomes toca num ponto muito importante: impeachment não é solução para governo ruim. É para isso que tem eleição.

“O PSDB não teve a grandeza nem de reconhecer o resultado das eleições, pedindo auditoria dos votos para alimentar a sensação de que as urnas estariam fraudadas. Isso é muito baixo.”

Quando o golpe se mostrou real?

O golpe se mostrou real principalmente quando Temer ganhou os donos do PIB e a classe política com uma agenda que jamais teria o aval das urnas. Muita gente diz que Temer quer implantar as propostas do PSDB em 2014, mas não é verdade, salvas algumas exceções. No Brasil a centro-direita que quer ter chances nas eleições precisa prometer direitos básicos. Estado mínimo é coisa do pastor Everaldo. Tanto que, diante da péssima repercussão diante de algumas declarações afobadas de ministros recém-empossados, Temer promoveu um recuo atrás do outro.

Qual texto mais te chamou atenção e por quê?

Essa é uma pergunta bem ingrata (risos). Mas eu gosto muito da leitura que o Armando Boito Jr. tem da crise neo-desenvolvimentista e das lideranças em jogo. É um dos textos mais preciosos.

Qual a pior consequência, caso o golpe se consuma, do governo de Michel Temer?

No texto que assino, falo um pouco sobre a gestação do sentimento de horror à política institucional, o que é muito nocivo para a cultura pública de todas as formas. E por que eu digo isso? Porque embora os rumos não tenham sido exatamente esses, ficou muito claro depois das gravações expostas do Romero Jucá, que durou 10 dias no governo provisório, que o impeachment era também uma tentativa de barrar a Operação Lava Jato pela cúpula mais poderosa do PMDB. É claro que o horror à política não nasceu aí.

Mas ele tem sido alimentado por uma classe política que se distanciou demais dos cidadãos que a elegem. O modelo representativo e o presidencialismo de coalizão já deram todos os sinais de esgotamento. Os mais jovens têm muito pouco interesse pela política e muitos dos que podem nem votam. A democracia não é unanimidade entre os brasileiros, e os discursos autoritários têm ganhado força. Se antes o receio da esquerda era a ascensão de lideranças tucanas, por exemplo, agora o problema é outro: é um Jair Bolsonaro com 8% das intenções de voto num Estado que não houve conciliação nacional depois de 21 anos ininterruptos do último regime oficialmente de exceção. Mas isso tudo é algo que não deve mudar com a confirmação ou não do impeachment. Se o golpe for confirmado, acredito que a pior herança é, dentre todas, a descartabilidade do voto. São 54 milhões jogados no lixo.

“A democracia não é unanimidade entre os brasileiros, e os discursos autoritários têm ganhado força. Se antes o receio da esquerda era a ascensão de lideranças tucanas, por exemplo, agora o problema é outro: é um Jair Bolsonaro com 8% das intenções de voto”

Como surgiu a ideia do livro?

A coleção Tinta Vermelha foi originalmente criada para produzir reflexões sobre questões urgentes da sociedade. Foi assim com os primeiros números. Em 2012, ela se debruçou sobre os movimentos sociais de ocupação no ano anterior. Em 2013, sobre as Jornadas de Junho. Em 2014, sobre os desdobramentos de Copa do Mundo e Olimpíadas. Em 2015, sobre a violência policial. E agora, em 2016, nada parecia mais urgente do que o golpe em curso no País.

Fonte: Agência PT de Notícias - por Bruno Hoffmann

#cultura