Ouro, morte e apoiadores de Bolsonaro elevam tensão em garimpo no Mato Grosso

15-Oct-2019

A notícia de que havia pepitas de ouro raso “brotando do chão” na Serra do Expedito, a 25 quilômetros da cidade de Aripuanã, no noroeste de Mato Grosso, se espalhou há um ano. Em busca do enriquecimento rápido, mais de 3.000 homens de vários pontos do país foram atraídos para o garimpo, que fica em uma área de 2,8 mil hectares, nas terras da fazenda Dardanellos, imóvel rural localizado no entorno da mineradora Nexa Resources, integrante da multinacional brasileira Grupo Votorantim, que tem um projeto para implantação de uma mina subterrânea de exploração de chumbo e cobre.

 

Os garimpeiros desmataram a floresta e escavaram o solo, dia e noite, com maquinário rudimentar, desenhando um cenário do impacto ambiental nos rios Aripuanã e Branco. A fazenda Dardanellos é de propriedade de Luiz de Almeida Saliez.  Ele diz que firmou um contrato de 23 anos de uso da área com a mineradora Nexa/Votorantim. Já a empresa nega esse contrato dizendo que “a Nexa não tem nenhuma relação contratual com a pessoa citada que envolva o imóvel onde ocorre a invasão garimpeira”.

 

Em 2018, Saliez denunciou aos órgãos ambientais do Mato Grosso a invasão de garimpeiros e o crime ambiental. “A situação está perigosa, porque os ilegais não aceitam diálogo. Se chegarmos perto, seremos mortos”, disse na ocasião.

 

Na madrugada do dia  7 de outubro, cerca de 160 policiais da Polícia Federal, com apoio da Polícia Militar, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e da Secretaria de Estado do Meio Ambiente de Mato Grosso (Sema), se deslocaram à fazenda Dardanellos para cumprir a ordem judicial de desintrusão da área, deflagrando a segunda fase da Operação Trype para fechar o garimpo.

 

A operação da Polícia Federal recebe a oposição do prefeito de Aripuanã, Jonas Rodrigues da Silva (PR), mais conhecido como “Jonas Canarinho”, e do deputado federal Nelson Barbudo (PSL/MT). Os dois pediram a intervenção do presidente da República, Jair Bolsonaro –  que apoia a abertura da mineração, inclusive, em terras indígenas do país – para manter o garimpo na fazenda Dordanellos.

 

A Polícia Federal informou à Amazônia Real que as investigações não apontaram envolvimento de funcionários da mineradora Nexa com a extração ilegal de ouro. Destacou ainda que a empresa colabora com as forças de segurança, oferecendo apoio logístico para a retirada pacífica dos garimpeiros da fazenda.

 

O prefeito Jonas Silva argumenta que os garimpeiros “são pais de família” e que a mina “aqueceu a economia local”. Ele decretou emergência social no Município para atender os garimpeiros.

 

A operação faz parte de uma investigação da PF que apontam “que a comercialização ocorria por meio de um articulado esquema de lavagem de dinheiro envolvendo emissão de documentos falsos e uso de contas bancárias abertas para essa específica finalidade criminosa”, diz o site da polícia.

 

Mas o clima ficou tenso em Aripuanã, que fica distante a 967 quilômetros de Cuiabá, capital do Mato Grosso. Os garimpeiros reagiram à operação policial. Um deles foi alvejado com dois tiros no peito e morreu, no confronto com militares do Batalhão de Operações Especiais (Bope), que é a tropa de elite da Polícia Militar de Mato Grosso.

 

No dia 8 de outubro (terça-feira), houve passeata na cidade e um protesto em frente ao Fórum de Aripuanã. Irritados, os manifestantes vaiaram os policiais e chegaram a arrastar uma caminhonete Hillux, da mineradora Nexa.

 

Em meio às manifestações, a PF começou a retirada dos garimpeiros e o fechamento dos buracos abertos por eles na floresta, com explosivos e a queima dos maquinários usados na extração ilegal de minério. A operação foi concluída nesta quinta-feira (10) com a retirada dos garimpeiros.

 

 A ação dos bolsonaristas pró garimpo

Aripuanã é uma cidade pacata com 20.293 habitantes, conforme o Censo do IBGE de 2014. Policiais disseram à agência Amazônia Real que assim que o garimpo foi instalado na região, em outubro de 2018, houve aumento significativo da criminalidade.

 

“A cidade era pacífica e depois já morreram seis pessoas no garimpo”, disse um policial militar, que pediu para não ser identificado. Ele acrescentou que há garimpeiros trabalhando como “meros diaristas”, e que tudo que acham “é dos chefes”. 

“Isso é uma máfia patrocinada por quem tem dinheiro. O ouro é vendido no mercado ilegal sem impostos e a maioria nem é vendida no Brasil. Sai para fora [do país] como contrabando, sem impostos, e volta para o país com alto valor”, afirmou o policial.

 

No cenário de tensão social, o prefeito de Aripuanã, Jonas Silva, foi a Brasília. Ele e o deputado Nelson Barbudo gravaram um vídeo prometendo que vão atuar a favor dos garimpeiros e “se preciso for” levarão o caso à Jair Bolsonaro.

 

“A maioria das pessoas que exploram o garimpo são trabalhadores, pais de família que, inclusive, tem aquecido a economia da região, com a compra de alimentos e combustíveis que movem as máquinas utilizadas no garimpo”, disse o prefeito de Aripuanã à Amazônia Real.

 

Ele defende uma solução pacífica para o conflito na fazenda Dardanellos, local onde a mineradora Nexa/Votorantim tem o projeto de exploração mineral. No final da tarde de terça, junto com Barbudo, o prefeito protocolou dois documentos na secretaria da Casa Civil da Presidência da República, sob o comando do ministro Onyx Lorenzoni. Eles pediram a intervenção direta do governo Bolsonaro para que os garimpeiros pudessem retirar seus maquinários do local.

 

Mas a ação do Ibama e da PF chegou antes. As forças policiais já haviam iniciado a destruição do garimpo pela manhã com a queima de maquinários, entre eles escavadeiras do tipo “PC”, que custam R$ 400 mil em média no mercado. Também detonaram, com explosivos, os buracos abertos para a exploração do ouro, conforme apurou a reportagem.

Mesmo com as investigações da Polícia Federal, que apontam o envolvimento de uma organização criminosa por trás do garimpo, o prefeito Jonas Rodrigues Silva defende que uma parte da área seja cedida pela Nexa/Votorantim aos garimpeiros, por meio da formalização de um a cooperativa, com a devida exploração da área, estava “autorizada pelos órgãos competentes”.

 

“Eu entendo que há uma questão social no local e, nesse processo, todos são importantes: desde o garimpeiro mais simples à empresa multinacional que irá explorar o minério no local pelas próximas décadas”, diz o prefeito.

 

Em vídeo, o deputado federal Nelson Barbudo defendeu a prática do garimpo ilegal. Chegou a dizer que recorreria até o presidente da República, se fosse o caso, para que os maquinários não fossem destruídos. 

 

“Então, você aí de Aripuanã saiba: nós estaremos no dia de hoje correndo na Polícia Federal, Casa Civil, na Secretaria de Governo, enfim… Se preciso eu chegarei até Jair Bolsonaro para que pacifiquemos a situação. Nós não queremos conflitos nessa região para que você possa resgatar o seu material sem prejuízo”, diz mensagem direcionada aos garimpeiros em áudio e distribuída em grupos pela rede social WhatsApp.

 
A morte de “Zé Maria”

Desde que a operação teve início, os ânimos se acirram na região, principalmente depois da morte do garimpeiro José Maria dos Santos, de 45 anos, mais conhecido como “Zé Maria”, em confronto com militares do Bope, de acordo com assessoria da Polícia Militar. A corporação foi o primeiro agrupamento a entrar na área de garimpo para retirar os invasores.

 

No momento em que os policiais faziam a varredura, “Zé Maria” saiu de um dos barracos de lona atirando contra os policiais que revidaram e atingiram o homem com dois tiros no peito. Ele chegou a ser levado para um hospital da região, mas não resistiu aos ferimentos e morreu antes de chegar à unidade.

 

A partir disso, os garimpeiros se revoltaram e mais de 3.000 tomaram a cidade de Aripuanã em protesto. O movimento chegou a ameaçar destruir uma ponte que dá acesso ao garimpo para evitar que as forças de segurança pudessem ter acesso à região. 

Vídeos que circulam nas redes sociais mostram os garimpeiros muito exaltados num clima de histeria pelas ruas da cidade. Numa passeata, eles vaiam e gritam com os agentes das forças de segurança, mandando que “eles vazem”. Em seguida, eles arrastam duas caminhonetes da empresa mineradora Nexa – que tem autorização legal para exploração do garimpo – e interditam uma das avenidas da cidade. 

 
O minério da Nexa/Votorantim

Policiais em operação dentro da fazenda Dardanellos (PF)

A mineradora Nexa Resources, integrante do Grupo Votorantim, diz em seu que o Projeto Aripuanã pertence à Mineração Dardanelos Ltda. “É um projeto conjunto entre Nexa Brasil (que possui participação de 62,3%), Nexa Peru (que possui participação de 7,7%) e Mineração Rio Aripuanã Ltda., uma subsidiária da Karmin Exploration Inc. (que possui os 30% restantes)”.

 

Segundo a empresa, “Aripuanã é um projeto subterrâneo de polimetálicos, localizado no estado de Mato Grosso, com data prevista para iniciar a operação em 2020. A estimativa de despesa de capital agregado exigida para este projeto é US$354,3 milhões”. O investimento em reais é na ordem de R$ 1 bilhão para um prazo de três anos de operações, segundo a mineradora. 

 

Em outro trecho, a Nexa diz que “o investimento consiste na implantação de uma mina subterrânea para produção de 65 mil toneladas de zinco, 25 mil toneladas de chumbo e 4 mil toneladas de cobre, ao ano. O Projeto Aripuanã representará o início das atividades da empresa no Estado. O empreendimento está previsto para entrar em operação em 2020”, diz a empresa em seu site.

 

O prefeito de Aripuanã, Jonas Rodrigues da Silva, destacou que os garimpeiros exploram uma área no entorno do local a onde a Nexa já instalou seus equipamentos para a extração mineral, e que atuação dessas pessoas não prejudicam o trabalho da mineradora.

 

“É por isso que eu defendo um acordo, uma espécie de termo de cessão por parte da empresa, no sentido de ela ceder uma parte da área a esses garimpeiros, que são trabalhadores honestos e vivem em situações muito precárias”, disse o prefeito. 

Silva acrescentou que a Nexa não começou a explorar o local, pois ainda está na fase de instalação dos maquinários. A operação só deve ter início em 2021, com todos os procedimentos autorizados pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), atualmente chamado de Serviço Geológico do Brasil, ligado ao Ministério de Minas e Energia.

 

A Nexa esclareceu a situação, por meio de nota à imprensa. Disse que, por determinação da Justiça, forneceu apoio logístico conforme requerido pelas autoridades policiais. “Isso se deveu porque o empreendimento em construção da empresa é o local com infraestrutura mais próxima da ação da Polícia Federal”, diz a nota.

 

A mineradora informou que não é proprietária dos imóveis onde vem ocorrendo as atividades de garimpo em Aripuanã. Como está descrito nesta reportagem, a propriedade é do empresário Luiz de Almeida Saliez. Conforme o fazendeiro, ele tem um contrato de 23 anos de uso da área com a mineradora do grupo Vorotantim.

 

“Nesse contexto, não cabe à Nexa qualquer negociação ou endereçamento de medidas, visto que a operação é de exclusiva responsabilidade da Polícia Federal”, disse a empresa.     

 

Em seu site, a Nexa Resources diz que o projeto mineral no município de Aripuanã para lavra e beneficiamento dos minérios na Serra do Expedito, tem “ “estimativa de vida útil mínima da mina de 15 anos, com capacidade de produção anual de 1,8 milhão de toneladas de minérios. O Projeto está em fase de licenciamento ambiental, na Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema)”.

 

Já o Grupo Votorantim atua nos setores de metais, siderurgia, cimento, celulose, energia, financeiro e produção de suco de laranja. Em 2018, registrou um lucro líquido de R$ 2 bilhões.

 
Operação Trype

 

A primeira fase da operação foi deflagrada em 26 de setembro, sendo motivada depois que a Polícia Militar de Aripuanã havia apreendido, dois meses antes, uma aeronave de pequeno porte com 6,5 quilo de ouro, num aeroporto que fica na zona rural da cidade. A carga foi avaliada em R$ 7 milhões e na ocasião dois suspeitos foram presos. Eles estavam com duas pistolas, carregadores e 27 munições intactas.

 

A partir disso, a PF descobriu que o ouro apreendido tinha ligação direta com a exploração ilegal do minério em Aripuanã, que envolvia um intrincado esquema de lavagem de dinheiro, emissão de documentos falsos e uso de contas bancárias abertas especificamente para garantir a movimentação financeira da organização criminosa. 

 

A primeira fase da operação resultou em seis pessoas presas, duas ordens de suspensão de atividade econômica, além de 16 mandados de busca e apreensão nas cidades mato-grossenses de Alta Floresta, Juína, Aripuanã e Paranaíta. 

 

Depois que alguns membros da quadrilha foram presos, a Polícia Federal afirma que a segunda fase da operação – deflagrada no início desta semana – consistiu em atuar diretamente no fechamento de garimpo, além de localizar mais outros “cabeças” da organização criminosa. 

 

Segundo a PF, entre os garimpeiros, conduzidos à Delegacia de Polícia Civil, há pessoas que respondem por crimes, entre os quais, a usurpação de minério (ouro) pertencente à união, danos ambientais, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal. 

 

Fonte: Amazônia Real

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