Museu ao Ar Livre de Orleans, em Santa Catarina, é tombado como patrimônio cultural brasileiro

12-Jun-2019

Criado para ser a memória viva da imigração e da colonização da região do sudeste catarinense, o Museu ao Ar Livre Princesa Isabel, em Orleans (SC), teve sua proposta de tombamento aprovada nesta quarta-feira (12) pelo Conselho Nacional do Patrimônio Cultural, que se reuniu na sede do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), instituição vinculada ao Ministério da Cidadania. O espaço cultural preserva de maneira viva e dinâmica as técnicas e métodos de trabalho dos colonos chegados entre meados do século XIX e início do século XX.

 

Além de ser um espaço que dá visibilidade à contribuição do imigrante europeu para a cultura nacional e o desenvolvimento da região, o acervo do Museu ao Ar Livre Princesa Isabel representa um momento pré-industrial da história da tecnologia no Brasil, em que conviviam o uso de máquinas e o artesanato. Assim, trata-se de um pedido de tombamento relacionado diretamente com a atuação do Iphan no campo do patrimônio industrial e da industrialização do Brasil, valorizando o aspecto cultural do universo do trabalho. A proteção federal ao museu valoriza a presença do elemento da imigração europeia na formação do país, contribuindo para a diversidade de etnias e elementos que formam o rico Patrimônio Cultural Brasileiro.

 

 

Para a presidente do Iphan, Kátia Bogéa, a aprovação do Conselho reforça a campanha Patrimônio Cultural do Sul: Turismo Cultural como ativo para o desenvolvimento das cidades históricas, lançada pela instituição no início de 2019. “O reconhecimento do Museu de Orleans não apenas aumenta a participação da Região Sul no Patrimônio Cultural, como reconhece a participação desses povos imigrantes na construção da Nação brasileira, com seus saberes, seus costumes e sua cultura”, enfatizou. Já de acordo com a superintendente do Iphan em Santa Catarina, Liliane Janine Nizzola, o tombamento é “um orgulho para todos os descendentes dos imigrantes, que se veem representados no museu. Fica também um convite e um valor agregado para todos que ainda não o conhecem. Além de ser um local que reúne a comunidade, ele é um patrimônio nacional”. 

 

Inaugurado há quase 40 anos, em agosto de 1980, em meio a uma festa que atraiu moradores de diversas cidades para comemorar o ápice de um processo iniciado anos antes pela própria comunidade, o espaço cultural pertencente à Fundação Educacional Barriga Verde ocupa um terreno de aproximadamente 20 mil m². Seguindo a proposta de um museu vivo, ele dá prioridade à interação com a comunidade, à recuperação de narrativas não oficiais e à participação de pessoas comuns no processo histórico. É formado por um conjunto de unidades de produção tradicionais típicas das atividades agroindustriais empreendidas no período da chegada dos colonos ao país. O visitante pode conhecer um antigo engenho de farinha de mandioca, monjolo, oficinas artesanais, balsa, ferraria e a Casa de Pedra, edifício que abriga o Centro de Documentação Histórica Plínio Benício.

 

“O reconhecimento é um marco importante para o museu e para nossa cidade, pois torna de relevância nacional esse que já um patrimônio do estado. Ele engrandece o nosso trabalho e valoriza a história da imigração catarinense”, afirmou a diretora do Museu, Valdirene Böger Dorigon. “É um acervo riquíssimo que pode ser ainda melhor aproveitado com a maior visibilidade do museu, que no ano passado recebeu cerca de 13 mil visitantes”, completa.

 

Em seu parecer, a conselheira relatora do processo, Maria Cecila Londres Fonseca, ressaltou a “variedade e a adequação” do projeto museográfico. Além disso, ela considerou que diversos outros fatores acrescentam importância ao local, tais como “o caráter comunitário de sua realização, sua função pedagógica e a dimensão simbólica do tratamento dado à temática do trabalho no campo na vivência dos imigrantes”. 

 
Origem do Museu

Alguns anos antes da criação do museu, em 1974, a região havia sido atingida por uma grande enchente, o que provocou a destruição da maior parte das indústrias rurais que ainda funcionavam à força hidráulica e animal. Diante desse risco à riqueza cultural da região, duas figuras protagonizam a criação do Museu Aberto de Orleans: o Padre João Leonir Dall’Aba, que nomeia a rua onde está situado o terreno e foi o grande idealizador do projeto, e Altino Benedet, artesão responsável pela instalação dos equipamentos.

 

 

O religioso foi líder da iniciativa comunitária para criação do espaço, motivado pela falta de informações que identificou em suas pesquisas sobre a imigração do Sul de Santa Catarina. Na busca por depoimentos e subsídios para sua investigação, localizou em um porão cerca 80 mil documentos da Empresa Colônia Grão Pará, pertencente à Princesa Isabel e seu marido, Conde D’Eu, que tinha como objetivo vender aos imigrantes as terras que foram dote de casamento da Princesa. O material compõe hoje o acervo do Centro de Documentação. Padre Dall’Aba teve o suporte fundamental de Altino Benedet, marceneiro desde os 14 anos de idade, àquela altura mestre nas técnicas construtivas tradicionais, para recuperar e restaurar todas as peças que encontram-se atualmente em condições perfeitas de funcionamento. Atualmente, o filho do artesão, José Benedet, que aprendeu o ofício com o pai e participou da montagem das peças quando era adolescente, trabalha como responsável pela manutenção dos equipamentos.

 

O projeto de criação do museu foi amparado e incentivado pelo Centro Nacional de Referência Cultural, parte de um programa de estudos de História da Ciência e da Tecnologia no Brasil, dirigido então por Aloísio Magalhães, posteriormente presidente do Iphan. A sua implementação envolveu a produção de uma detalhada documentação por meio de fotografias, textos e desenhos, além do relato de Altino Benedet, que foi responsável por desmontar e remontar os aparelhos, visando preservar não apenas os bens, mas também a memória do processo de fabricação dos instrumentos. Dessa forma, o acervo trata da história das técnicas, mas também registra os fazeres das populações imigrantes. Como resultado, a conservação física das máquinas e materiais proporcionada pelo Museu permite até mesmo a reprodução atual de técnicas extintas, assim como a pesquisa e a observação direta de quase todos os tipos de rodas d’água que já foram usadas: rodas copeira, meio-copeiras, rasteiras, turbinas e até o tradicional monjolo, entre outras técnicas.

 
Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural

O Conselho que avalia os processos de tombamento e registro é formado por especialistas de diversas áreas, como cultura, turismo, antropologia, arquitetura e urbanismo, sociologia, história e arqueologia. Ao todo, são 22 conselheiros, que representam o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos), a Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB), o Ministério da Educação, o Ministério do Turismo, o Instituto Brasileiro dos Museus (Ibram), o Ministério do Meio Ambiente, o Ministérios das Cidades e mais 13 representantes da sociedade civil, com especial conhecimento nos campos de atuação do Iphan.

 

Nesta quinta-feira (13), o colegiado avaliará a solicitação de registro do Bembé do Mercado, manifestação cultural de Santo Amaro, no Recôncavo Baiano

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Fonte: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)

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