Mídia internacional denuncia golpe em curso no Brasil

22-Apr-2016

A cobertura da imprensa internacional sobre a votação do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, no último domingo (17), tem denunciado o golpe em curso no Brasil. Diversos veículos e jornalistas estrangeiros questionam a legalidade do processo, ressaltando que a maioria dos parlamentares que votaram a favor do impeachment tem denúncias de corrupção, com destaque para o presidente da Câmara, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

 

As justificativas dos deputados para votar pelo afastamento da presidenta, que vão desde o nascimento da filha ou da neta, a renovação carismática, até homenagens a torturadores, também foram abordadas pela mídia internacional.

 

THE ECONOMIST
Revista britânica The Economist lamenta os argumentos utilizados pelos deputados brasileiros para justificar suas posições favoráveis ao impeachment. O veículo é crítico do governo Dilma, mas questiona, pela segunda vez, a legitimidade do impeachment. Desta vez, a crise política foi chamada na capa.

 

Democracy Now
O veículo internacional independente de notícias, Democracy Now, publicou texto, nesta quarta-feira (20), abordando o processo de impeachment da presidenta Dilma.

Segundo o portal, o Brasil está mergulhado em escândalo de corrupção, “mas Dilma não foi acusada de nenhuma irregularidade financeira”.

 

“Entretanto, 318 membros do Congresso brasileiro, incluindo muitos que apoiaram seu impeachment, estão sob investigação ou enfrentam acusações”, afirmou.

 

Em outra passagem, a matéria denuncia a ida do senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) aos Estados Unidos, para participar de reuniões a portas fechadas com várias autoridades e lobistas dos EUA. O senador estaria se reunindo com o presidente e membro da Comissão de Relações Exteriores do Senado americano, o republicano Bob Corker, para discutir a situação no Brasil.

 

“Ele também teria comparecido a um almoço oferecido pela empresa lobista de Washington, Albright Stonebridge Group”, escreve o Democracy Now.

 

The New York Times
Em editoral publicado na segunda-feira (18), o The New York Times explicitou o golpe parlamentar, afirmando que as chamadas ‘pedaladas fiscais’ foram um pretexto para um referendo sobre o PT, no poder desde 2003.

 

Para o jornal, o caso contra Dilma pouco tem a ver com as pedaladas, “que outros governantes eleitos no Brasil fizeram sem provocar escrutínio”.

 

O jornal trouxe, ainda, a preocupação de analistas políticos brasileiros com o que classificou como danos a longo prazo para a “jovem democracia brasileira, restabelecida em 1985 após duas décadas de ditadura militar”.

 

Ao falar do presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o maior jornal dos Estados Unidos mencionou as acusações de que Cunha usou contas em bancos suíços para esconder “milhões de dólares em propina”.

 

“Há a questão de quem e o que virá a seguir”, escreveu o NYT. O jornal norte-americano destacou que Michel Temer pode enfrentar as mesmas acusações que Dilma.

 

“O próximo na linha da presidência após Temer é Eduardo Cunha, o poderoso líder da Câmara dos Deputados. Cristão evangélico que usa sua conta no Twitter para disseminar versos bíblicos, Cunha é acusado de usar uma conta em um banco na Suíça para esconder R$ 40 milhões em propinas”, definiu.

 

Forbes
A revista Forbes publicou texto ironizando a reportagem da revista brasileira Veja, classificada pela própria Forbes como o veículo de maior tendência conservadora do Brasil, que fez matéria enaltecendo a esposa do vice-presidente Michel Temer (PMDB) como uma mulher ‘Bela, recatada e do lar‘.

 

“A última edição da revista Veja, veículo de inclinação para a direita da grande imprensa brasileira, apresenta um extenso perfil da esposa do atual vice-presidente do Brasil, Michel Temer, o homem agora posicionado para assumir o País se Rousseff for formalmente deposta por um julgamento no Senado nas próximas semanas”.

 

Segundo a revista norte-americana, os brasileiros usaram as redes sociais para responder à revista, em uma campanha bem humorada que viralizou ao refutar a insinuação da matéria de que a mulher ideal deve ser recatada, vestir-se de forma adequada e permanecer em casa, explicitando o machismo na sociedade brasileira.

 

Financial Times

Um dos jornais mais influentes da Europa, o britânico Financial Times, ironizou, em sua versão impressa desta terça-feira (19), as dedicatórias feitas pelos parlamentares, em honra das esposas, filhos, etc.

 

O veículo afirmou que a maioria dos deputados aparentou ser desinformada, citando um que dedicou seu voto à ‘população de rua que vive na rua’. O texto termina com uma referência ao parlamentar que anunciou o voto decisivo, Bruno Araújo, do PSDB, ter sido mencionado nas investigações do escândalo da Petrobras. “Com tantos entre os defensores do impeachment envolvidos ou mencionados na investigação, Temer terá um período difícil se assumir a presidência”, conclui o jornal.

 

Le Monde
Na França, o jornal Le Monde enfatizou que muitos deputados que ratificaram a admissibilidade são suspeitos de questões mais pesadas do que aquelas supostamente praticadas pela presidenta Dilma.

 

Spiegel
O alemão Spiegel, em sua matéria intitulada ‘A revolta dos Bonzinhos’, adotou tom crítico, ao afirmar que “o Congresso brasileiro mostra a sua verdadeira face”.

 

“A maioria dos parlamentares não votou somente pela suspensão da presidenta Dilma Rousseff. Usando métodos mais do que questionáveis, eles conduziram o navio brasileiro para uma rota de direita”, escreveu.

 

The Economist
O jornal norte-americano The Economist publicou, na mesma segunda-feira (18), que quase nenhum dos deputados federais em favor do impeachment usou o suposto crime de responsabilidade como razão para o voto.

 

“Ao invés disso, eles citaram um monte de motivos mais ecléticos para os votos”, afirmou o jornal, enumerando as principais razões ditas pelos parlamentares na hora da votação.

 

Na lista publicada pelo jornal constam como justificativas para o voto a favor do impeachment o nascimento da filha ou da neta, ou o aniversário de 93 anos da mãe, e até a renovação carismática, a fundação do cristianismo ou a congregação da igreja

Quadrangular.

 

O The Economist também falou do motivo dado pelo deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que citou o torturador da ditadura militar, Carlos Alberto Brilhante Ustra.

 

The Irish Times
O jornal irlandês The Irish Times fez matéria intitulada ‘Brasil envia os palhaços para votar em Dilma impeachment’, na segunda-feira (18), onde afirmou que os deputados se comportaram “com todo o decoro de fãs de futebol bêbados”.

 

“Apenas alguns da esmagadora maioria que votou pelo impeachment se importaram em abordar as acusações contra a presidente contidas no processo”, escreveu.

 

Para o jornal, os deputados que acusavam Dilma e o PT de corrupção não tinham nenhum senso de ironia, “já que ao menos 299 dos 513 membros da Câmara estão sendo investigados por má conduta”.

 

The Irish Times finaliza o texto afirmando que o impeachment de Dilma, ao invés de limpar o Brasil da corrupção, pode apenas “aprofundar o pântano moral na qual a vida pública brasileira está afundando”.

 

Miguel Sousa Tavares
Em Portugal, cientista político Miguel Sousa Tavares, disse que nunca viu o “Brasil ser tão baixo“.

 

“O que se passou no Congresso brasileiro ultrapassa tudo que é discutível. Foi uma assembleia geral de bandidos, comandada por um bandido chamado Eduardo Cunha”.

 

Glenn Greenwald
O jornalista premiado conhecido pelo caso Edward Snowden, Glenn Greenwald, também condenou a votação do impeachment. Para ele, “foi uma votação muito polarizada e muito feia” por causa de atitudes como a do deputado Jair Bolsonaro. Na avaliação do jornalista, a votação reflete esse sentimento crescente no Brasil que o país esteja dividido de uma maneira muito perigosa e instável.

 

El País
Para o jornal espanhol El País, a imensa maioria dos deputados que votaram neste domingo a favor do impeachment da presidenta Dilma “pareceu esquecer os verdadeiros motivos que estavam em discussão”, e que cerca de 60% dos presentes, incluindo o presidente Eduardo Cunha, têm casos pendentes de corrupção nos tribunais.

 

“Os deputados defenderam a destituição de Rousseff pelas razões mais diversas: ‘por minha esposa Paula’, ‘por minha filha que vai nascer e minha sobrinha Helena’, por meu neto Gabriel’, ‘por minha tia que cuidou de mim quando pequeno’, ‘por minha família e meu estado’, ‘por Deus’, ‘pelos militares de 64’, ‘pelos evangélicos’, ‘pelo aniversário da minha cidade’, ‘pela defesa do petróleo’, ‘pelos agricultores’, ‘pelo café’ e inclusive ‘pelos vendedores de seguros do Brasil’ ”, destacou.

 

Em tom de chacota, o El País fez um paralelo entre os parlamentares e os telespectadores de Xuxa, “que aproveitavam sua participação no programa para saudar sua mãe, seu marido, sua amante, seu primo, seu neto, seu vizinho, seu amigo, seu porteiro”.

 

“A defesa da família, da propriedade, de Deus e da ordem nas mãos dos militares mostram a verdadeira foto do Congresso mais conservador desde 1985 e sugerem, ainda, que ninguém leu o relatório com os fundamentos jurídicos que justificariam o crime de responsabilidade, necessário para a saída de Rousseff – ou, ao menos, ninguém se esforçou em demonstrar”, completou.

 

“O ex-militar Jair Bolsonaro, sempre passando dos limites, dedicou seu voto a favor do Coronel Ustra, reconhecido pela Justiça como um torturador durante a ditadura brasileira”, afirmou o El País.

 

The Guardian
O voto do deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) também foi registrado pelo jornal The Guardian, que classificou como o “ponto mais baixo” da sessão.

 

“Em uma noite escura, sem dúvida o ponto mais baixo foi quando Jair Bolsonaro, o deputado de extrema-direita pelo Rio de Janeiro, dedicou seu voto ‘sim’ a Carlos Brilhante Ustra, um coronel que liderou a unidade de tortura no Doi-Codi durante o período da ditadura. Rousseff, uma ex-guerrilheira, foi uma das torturadas”, escreveu.

 

O jornal britânico elencou outros votos “em nome de Deus” e feitos por deputados com denúncias de corrupção, com pó próprio presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), Paulo Maluf (PP-SP), Nilton Capixiba (PTB-RO) e Silas Câmara (PRB-AM).

 

Fortune
Outro jornal estrangeiro, o Fortune, disse que o impeachment de Dilma pode significar mais corrupção no Brasil.

 

E destaca que a presidenta Dilma não está sendo diretamente implicada em denúncias de corrupção. “Em contrate, os principais nomes do PMDB estão sob investigação, assim como políticos da maioria dos partidos do Brasil. Colocar o PMDB ao poder para limpar a política brasileira é semelhante a limpar o chão com um pano sujo”, afirmou.

 

Página 12
Periódico argentino, o Página 12, disse que a votação do processo de impeachment foi “um golpe que se viu ao vivo”.

 

“Ontem, a Câmara dos Deputados, presidida por Eduardo Cunha, que é réu no Supremo Tribunal Federal por vários crimes, que vão desde a corrupção pura e simples a manter contas ocultas na Suíça, decidiu por fim a um governo de quem nem sequer é investigada”, ressaltou.

 

Fonte e imagens: Agência PT de Notícias  por Luana Spinillo

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