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Três estados lideram o ranking das queimadas na Floresta Amazônica


O fogo de janeiro até agosto foi 39% maior que a média dos últimos dez anos para o mesmo período no bioma, diz o WWF. Imagens das queimadas em Rio Branco, no Acre (Foto: Sérgio Vale/Amazônia Real)

Apesar de toda a mobilização das Forças Armadas por meio da operação Verde Brasil 2, o governo Jair Bolsonaro (sem partido) não conseguiu reduzir de forma significativa a quantidade de queimadas no mês de agosto nos estados que formam o bioma Amazônia. 


Em agosto, o estado do Pará foi o campeão no registro de focos de queimadas no bioma, com 10.865 detecções, seguido pelo Amazonas, com 8.030. A surpresa dos dados levantados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) é a terceira posição ser ocupada pelo Acre, estado que até anos atrás ocupava as últimas posições nos rankings de devastação na região amazônica.


Com 3.578 focos, o Acre superou até mesmo Mato Grosso (3.336) e Rondônia (3.086). 

Municípios que já no ano passado estavam no topo do ranking de registro de focos de incêndio, mantêm-se nas primeiras posições neste 2020, mostrando a pouca eficiência da moratória do fogo e do emprego dos militares federais no combate aos crimes ambientais


De 1 a 31 de agosto foram detectados 29.307 focos de queimada no bioma Amazônia, conforme os dados do Inpe. No mesmo mês do ano passado foram 30.900. Também há queda quando se compara a quantidade de focos acumulados nos oitos meses de 2020, com o mesmo período de 2019: foram 44.013 pontos, contra 46.824 – redução de 6%. 


“O total de focos de fogo de janeiro até agosto na Amazônia mostra um número 39% maior que a média dos últimos dez anos para o mesmo período no bioma”, diz Raul Valle, diretor de Justiça Socioambiental do WWF-Brasil. “Uma pequena queda nos números de agosto, quando comparado com 2019, não significa quase nada, dado que no ano passado os números nesse mês foram recordes.”

Queimadas em Rio Branco, no Acre (Foto: Sérgio Vale/Amazônia Real/2020)

“Mesmo essa queda precisa ser relativizada, já que uma pane no satélite de referência usado pelo Inpe, o Aqua, fez com que parte da Amazônia não fosse observada no dia 16, produzindo um número anormalmente baixo de detecções”, diz nota emitida pela organização Observatório do Clima. De acordo com explicações do Inpe, o satélite Aqua é operado pela Nasa e apresentou problemas em 16 de agosto, o que “não foi possível o monitoramento completo do Brasil”. 


Ainda segundo o Observatório do Clima, o resultado mostra o insucesso da operação Verde Brasil Verde 2, que tem como seu grande coordenador o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, presidente do Conselho Nacional da Amazônia Legal.

“Entre maio e agosto, período de presença do Exército na Amazônia, o número de queimadas foi de 39.187, basicamente o mesmo de 2019 (38.952). Os militares foram à Amazônia em tese para evitar a repetição da tragédia do ano passado. Desde julho vigora uma moratória às queimadas.” 


“O teatro militar montado pelo general Hamilton Mourão na Amazônia para iludir os investidores não conseguiu enganar os satélites”, disse Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.


Tanto Mato Grosso quanto Rondônia já são conhecidos pelo histórico de elevada degradação do bioma Amazônia dentro de seus territórios, enquanto o Acre ocupava certo papel de vanguarda na proteção de sua 87% de cobertura florestal. Desde 2019 o estado tem chamado a atenção pelo aumento tanto no registro de incêndios ambientais quanto de desmatamento. 


Conforme levantamento do Sistema de Alerta de Desmate (SAD), do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), em julho o Acre foi responsável por 12% de todo o desmatamento registrado; Mato Grosso – que sempre lidera com o Pará os índices de devastação – respondeu por 9%.  Em 2019, o Acre desmatou 706,48 km2 de floresta, aponta o Prodes/Inpe; uma diferença bastante expressiva quando comparado com 2018 (461,25 km2) e 2017 (245, 66 km2).


E o fogo dentro do estado se concentra justamente nos municípios que possuem as maiores áreas de floresta preservada e onde estão concentrados 90% dos territórios indígenas. Desde 2019 o município de Feijó é o líder no ranking do fogo no Acre. Em agosto foram  1.067 focos. Logo depois vêm os vizinhos Tarauacá (684) e Manoel Urbano (275). 


Após apresentar um certo controle e até redução no registro de queimadas em 2020 – quando comparado com o ano passado – o Acre parece ter sofrido um boom de incêndios nos últimos dias de agosto. Entre 1 de janeiro e o dia 28, por exemplo, o estado tinha uma redução de 12% na quantidade de focos detectados pelo monitoramento do Inpe, quando se fazia um comparativo com o mesmo intervalo de 2019. Ao fim dos 31 dias, contudo, houve um acréscimo de 18%. 


Diante destes cenários, o governo do Acre decidiu decretar, nesta terça-feira, 1, situação de emergência ambiental. A medida se fez necessária diante do atual nível crítico dos rios, com destaque para o Acre, responsável pelo abastecimento de água de 70% da população. O decreto tem validade de 180 dias. 


Ciclista trafega na rodovia BR 230 encoberta por fumaça das queimadas, em Apuí (AM)

No Amazonas, a geografia do fogo também não foi alterada neste agosto de 2020. As queimadas continuam concentradas mais ao sul e sudeste do estado. Apuí, localizado nas divisas com Mato Grosso e Pará, registrou 1.482 queimadas. Mais abaixo seguem Lábrea (1.315), Novo Aripuanã (1.134), Manicoré (747), Humaitá (571) e Boca do Acre (502). 


Todos estes municípios são donos de imensas áreas territoriais, o que facilita a prática do desmatamento para a ocupação irregular de terras públicas – a grilagem. A quase ausência do Estado nestas regiões contribui para este tipo de delito. Já há alguns anos o sul amazonense vem sofrendo com o aumento expressivo do desmatamento e das queimadas para áreas que passam a ser ocupadas por fazendas de gado. 


Os dados do Inpe não apresentam nenhuma novidade entre os municípios do Pará recordistas em fogo no mês passado. Altamira, São Félix do Xingu e Novo Progresso concentram quase 60% dos 10.865 focos no estado. O trio já é conhecido por todos os anos liderar o ranking da devastação na Amazônia brasileira. A permanência deles no topo revelou – uma vez mais – a falta de planejamento e eficácia do governo Bolsonaro na proteção da Floresta Amazônica; ineficiência esta que parece ser proposital. 


É no Pará onde se encontram também as terras indígenas que mais pegaram fogo no decorrer de agosto, consolidando uma problemática já conhecida da invasão dos territórios tradicionais no estado por madeireiros, fazendeiros e garimpeiros. A Terra Indígena Munduruku esteve como a mais impactada pelo fogo, com 161 focos. A segunda posição é do Parque do Xingu, em Mato Grosso: 157. 


Logo depois voltam as TIs localizadas no Pará: Andirá-Marau (que também abrange Amazonas, com 150 focos), Apyterewa (148) e Kayapó (78). Depois como as mais afetadas seguem as terras indígenas espalhadas pelo Mato Grosso e por Rondônia.    


Fonte: Amazônia real