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O estrabismo do Grande Irmão


A rapper Karol Conká é eliminada do Big Brother Brasil com 99,17% dos votos – Arte de Lívia Magalhães sobre reprodução do programa Mais Você, da Rede Globo

Terça-feira, dia 23, quase meia-noite. Em meio ao silêncio pandêmico de um dia comum, quando tudo parece levar a uma noite tranquila, gritos ecoam por várias cidades Brasil afora. Fogos de artifício são ouvidos aqui e ali. Não, não é o final do Brasileirão – só dali a dois dias se saberia o nome do novo campeão brasileiro. Mas há um frenesi aparentemente sem sentido no ar. Mas facilmente explicável e compreensível para qualquer um que tenha alguma rede social ou que não esteve em Marte junto com o robozinho Perseverance nos últimos tempos. Porque o brasileiro é, antes de tudo, um torcedor. Só que aquela gritaria extemporânea não estava comemorando uma vitória, mas sim uma derrota – a da rapper Karol Conká, eliminada do Big Brother Brasil 21 com inacreditáveis 99,17% dos votos, um recorde absoluto na história do programa.


No total, foram 285 milhões de votos – outro recorde – para aquele paredão triplo, que ainda contou com as participações de Arthur Picoli e Gilberto, o Gil do Vigor. Muita gente gastou o dedo votando incessantemente na eliminação da rapper que fez e desfez em seu tempo naquela casa que confina duas dezenas de pessoas e procura emular as relações humanas como se fosse tudo normal. Mas não é. Trata-se de um reality show, mas há pouco de realidade nessa história toda. Pelo menos da realidade para quem está do lado de fora da casa, ainda mais em tempos de coronavírus e distanciamento social, com as pessoas tendo que ficar em casa, em um confinamento que não tem R$ 1,5 milhão de prêmio no final. Mas talvez seja justamente por isso que o programa chama tanto a atenção. Ele tem um quê de catártico, de desafogo – isso sem querer entrar em considerações que não pretendem ser científicas. Mas que valem um olhar mais atento.

Paredão que eliminou Karol Conká também incluiu participações de Arthur Picoli e Gilberto, o Gil do Vigor

Até porque é impossível passar despercebido pelo que o BBB 21 levanta de polêmicas, discussões e envolvimento. Os números do programa, hiperbólicos, levam a uma perplexidade. Os tais 285 milhões de votos – o que só demonstra o quanto de gente que se dispôs a votar inúmeras vezes contra uma pessoa que não vai mudar os rumos do País -, o recorde de rejeição e tantos outros. Antes da Karol Conká, já havia outro recordista: o humorista gaúcho Negro Di, que saiu com mais de 98% dos votos e gerou mais de 1,8 milhão de tuítes. Haja dedo. A coisa chegou a tal ponto de, digamos, engajamento, que Neymar postou nas redes sociais sua “alegria” em ver o comediante cair fora da casa. Só que houve tradução para o inglês e o Google Translator – que não entende nada de BBB 21 – surtou, e traduziu “Negro Di” para um “Black man” genérico. Pronto. Foi o suficiente para o craque brasileiro rolar para dentro de mais uma polêmica, quase acusado de racismo.


Por que sabemos de tudo isso? Porque o algoritmo não nos deixa em paz. Não adianta bloquear, fingir que não está vendo, assobiar e sair de lado. Boninho, o diretor-mestre dos magos do BBB, conseguiu de novo. E conseguiu tanto que levou a discussão para dentro de uma reunião de pauta do Jornal da USP. Por 45 minutos pessoas que pareciam impermeáveis ao canto da sereia do Grande Irmão se renderam à discussão e mostraram, sim, que isso é assunto sério. Mais sério do que se poderia imaginar nas edições anteriores do programa. Por que, pelos céus, as pessoas se envolvem tanto, beirando quase uma passionalidade incontrolável? É isso que merecia aquele olhar atento mencionado há pouco.


Um olhar diferente daquele que é proposto pelo programa. Porque este pode, muitas vezes, estar torto, diluído em inter-relações que não coadunam com o cotidiano. Por mais que o BBB 21 tenha levado para a casa discussões sérias como a questão racial e o assédio psicológico, muitas vezes a profundidade dos debates não ultrapassou a de um pires. Com seu olhar estrábico, o Grande Irmão até via as coisas acontecendo, mas não exatamente na mesma direção, da forma que elas são. E talvez seja essa a intenção, mesmo.


Não pode transbordar


“Vocês dizem que estão sendo vocês mesmos, mas a vida aqui fora é assim?”, perguntou o apresentador Tiago Leifert aos participantes na terça-feira recordista. “A vida aqui fora tem eliminação? O BBB é um jogo, você está vivendo um jogo, algo bem específico. Aí dentro, você não tem escolha, nem controle. Você faz coisas que nem imaginava poder fazer – para o bem e para o mal”, continuou ele. Pode-se dizer que a “leifertização” – para pegar emprestada uma expressão cunhada pelo jornalista Juca Kfouri – do reality mudou a pegada do programa, deixando-o talvez mais interessante do que quando era comandado por Pedro Bial e suas platitudes. Digamos, ele ficou mais “real” – ou pelo menos ganhou um chamamento a uma realidade que aqueles participantes, confinados, perderam de vista.


“Não há outro jeito de jogar o BBB. Mas o que vocês fazem aí dentro deve ficar aí dentro, não deve transbordar”, alertou Leifert, certamente pensando na rejeição-monstro sofrida por Karol Conká e procurando fazer um discurso de “contenção de danos”, mais do que uma fala inspiradora ou explicativa. Só que transbordou – e de várias formas.


Porque, diferentemente do que afirmou Leifert, as pessoas na casa podem acabar se revelando como realmente são. Pelo menos é o que acredita a psicanalista Marion Minerbo. Em uma publicação do Instituto de Psicologia da USP, em 2007, ela escreveu acerca das representações na casa, ao comparar a ação dos participantes com atuações em uma novela, por exemplo. O mundo é um palco, já disse o velho bardo de Stratford-Upon-Avon. Mas os atores precisam ser assim?


“Sem roteiro, ninguém foge ao que é – ninguém pode ser muito diferente do que determina seu inconsciente. Lançados num palco, sem roteiro, bons atores improvisam bem, maus atores improvisam mal. Mas no reality show as pessoas são obrigadas a ser o que são ‘de verdade’. Nesse sentido, estão realmente expostas”, afirmou ela, de uma maneira ainda bem atual.


Durante sua participação na casa, a rapper humilhou várias vezes pelo menos um brother – Lucas, que pediu para sair. Discutiu feio com Camila de Luca, o que levou a sister a responder a Karol que não iria “disputar negritude” com ela – e a questão racial não passou da página três, apesar de esse ser o BBB com o maior número de participantes negros de todos os tempos. Isso, entre outras coisas. Em dado momento, a rapper chegou a dizer a uma outra participante: “Não te odeio, o ódio é podre. O que eu tenho é medo da rejeição. Não quero ser rejeitada”. Não adiantou essa espécie de mea culpa. Não só Karol foi rejeitada por mais de 99% daqueles 285 milhões de votos, como a sua participação agressiva acabou pesando no bolso: reportagens em jornais davam conta de que ela havia perdido mais de R$ 5 milhões em contratos de publicidade e shows. Karol Conká – que afirmou, em um programa de TV pós-eliminação, ser a “nova Carminha”, a vilã-mor da antológica novela Avenida Brasil, e pediu “perdão” ao País – errou a letra.

Karol Conká discutiu com alguns membros da casa, incluindo Lucas Penteado e Camilla de Lucas – Arte de Lívia Magalhães sobre fotos de divulgação da Rede Globo

Sociedade e espetáculo


Vilanias televisivas à parte, o que levou tanta gente a votar em uma pessoa em um programa de TV, a subir hashtags nas redes sociais e a eleger uma inimiga pública número um? É fato que todo BBB tem seus heróis e vilões, desde os tempos de Kléber Bambam e o seu arrastado “faz parrrrrte”. É isso que cimenta seu sucesso, e não só no Brasil – mas aqui a coisa parece extrapolar. O BBB serve de exemplos e metáforas para discussões que vão do futebol à política. Assim, a Globo acaba por pautar o debate público.


E isso graças aos seus estereótipos – o “bonzinho”, “a mãe”, “a vítima”, a “bela”, “o infantil”, “a vilã” – e, de acordo com tuítes maldosos, até representante do reino vegetal tem nessa versão do programa, já que a impassividade do dublê de ator e cantor Fiuk o levou a ser comparado a uma planta inofensiva. Deixando de lado se Fiuk é ou não uma samambaia, o espectador escolhe por quem vai torcer e o jogo está posto. Mas não cabe aí uma chance para a vilã ou vilão – nunca um deles ganhou o reality. Eles estão ali para serem os antagonistas, para serem odiados mesmo. E para baterem recordes de rejeição.

É uma forma de espetacularização da sociedade.


“A realidade, considerada parcialmente, reflete em sua própria unidade geral um pseudomundo à parte, objeto de pura contemplação”, escreveu, nos anos 1960, Guy Debord em seu clássico A Sociedade do Espetáculo. “Enquanto parte da sociedade, o espetáculo concentra todo o olhar e toda a consciência. Por ser algo separado, ele é o foco do olhar iludido e da falsa consciência”, afirmou o pensador francês. Debord escreveu sua obra há mais de 50 anos, mas ela ainda toca em pontos fulcrais. A sociedade não mudou tanto assim. Nem o espetáculo. A produção do efêmero continua a dar as cartas.


Por este caminho, o espectador do BBB se sente tanto ator social, tanto agente da ação, quanto aqueles trancafiados intramuros. É ele, com um dedo nervoso, que tem o poder de decidir o destino de cada participante. Em tempos em que há muitos rivais a vencer – principalmente um invisível, que já dizimou mais de 250 mil brasileiros -, poder eliminar o inimigo talvez seja, como se afirmou no início deste texto, uma forma de catarse. Se não posso vencer na vida real, que seja em um programa de TV, acaba-se por pensar. E tome comentários em toda e qualquer rede social. É como uma vingança. Mas que não pode ser uma obsessão.


“O que me parece enlouquecedor são os reality shows. Que são tudo menos reais. Se uma pessoa se sentir obcecada por eles, acaba sem conseguir distingui-los da realidade”, afirmou o escritor britânico de origem indiana Salman Rushdie.

Ao assistir ao BBB, muitos acabam capturados pelo espanto – e não conseguem se desvencilhar desse turbilhão. A curiosidade, a vontade de torcer por este ou aquele, o desejo de só “dar uma olhadinha” no que está acontecendo por vezes são maiores do que demanda o bom senso. E passa a haver uma simbiose de realidades – de quem assiste e de quem é assistido -, o que pode turvar a visão.


“Mesmo habitando um ambiente artificialmente construído para a apresentação do eu, ambiente este que é, ainda por cima, mediado por câmeras de televisão e microfones, o participante do Big Brother se torna real para a audiência através dos diálogos que mantém com os outros integrantes da casa, assim como com a sua interação com esse ambiente”, escreveu o professor da Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ) Bruno Campanella. “Apesar de não haver um contato presencial com a audiência, uma relação dialógica se forma, onde o participante se torna, para a audiência/leitor, um sujeito que desperta expectativas e aspirações.”


E essas expectativas fazem parte do jogo. Um jogo longo, sem dúvida: este BBB 21 vai durar 100 dias e só deve terminar em 4 de maio. Até lá, ainda haverá muito o que se discutir, com certeza. Tiago Leifert afirmou que “o que acontece no BBB fica no BBB”. Será? Em um programa da TV aberta, que leva a polêmica para muito além de um jogo e monopoliza discussões Brasil afora, dificilmente o que acontece naquela casa vai permanecer entre quatro paredes.


Fonte: Jornal da USP