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As políticas do Brasil condenam a Amazônia a uma segunda onda de Covid-19


A imagem deste artigo mostra movimento em rua no centro de Manaus quando os comércios foram reaberturas durante a pandemia. (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

Por: Amazônia Real Lucas Ferrante, Wilhelm Alexander Steinmetz, Alexandre Celestino Leite Almeida, Jeremias da Silva Leão, Ruth Camargo Vassão, Unaí Tupinambás, Philip Martin Fearnside, Luiz Henrique Duczmal


Os governantes da cidade de Manaus, do Estado do Amazonas e do Brasil vêm ignorando as informações científicas sobre a Covid-19 e seguem em direção a uma segunda onda. A ameaça que isto implica é detalhada em uma carta publicada em 07 de agosto de 2020 na prestigiada revista científica Nature Medicine. Segue a tradução em português do texto original [1]:


Até 20 de julho, o Brasil ocupa o segundo lugar no mundo tanto em número de casos confirmados de Covid-19 (2,074,860) quanto em mortes (78,772) [2]. O primeiro caso na região amazônica do Brasil foi relatado em 13 de março, no Estado do Amazonas [3]; essa região é particularmente sensível à Covid-19 devido ao grande número de povos indígenas e seus descendentes, que fazem parte do grupo de risco da Covid-19 [4].


Em 17 de abril, quando o número acumulado de casos confirmados no Amazonas totalizou 1.809 e as mortes confirmadas totalizaram 145 [3], alertamos que seria necessário um distanciamento social estrito em Manaus e a restrição de viagens estaduais e interestaduais (rodoviária, aérea e fluvial) para evitar que o vírus Sars-CoV-2 se espalhasse no interior do estado [4]. Nenhuma dessas medidas foi tomada e, entre a data do aviso e 20 de julho, os casos confirmados no Amazonas aumentaram 4.051% (atingindo 91.387) e as mortes confirmadas aumentaram 2.069%, totalizando 3.146, de acordo com dados da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS) [3], do governo do estado.


Segundo o prefeito de Manaus, o sistema de saúde entrou em colapso em abril, assim como os cemitérios da cidade [3]. Quase todas as Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) do estado estão localizadas em Manaus. Isso significa que o colapso do sistema de saúde em Manaus representa um colapso do sistema de saúde de todo o estado do Amazonas, que é o maior do Brasil em termos de área e ocupa aproximadamente um terço da região Amazônica do país.


Em 06 de maio, a Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas aprovou uma lei que permitia a reabertura de templos e igrejas [5]. A reabertura de lojas “não essenciais” ocorreu em 1º de junho. As informações científicas foram ignoradas pelos tomadores de decisão [5, 6], que se basearam em “opiniões” não publicadas e não revisadas pelos pares, sugerindo o fim do isolamento social e colocando assim milhares de vidas em risco [7]. Argumentos não científicos também apoiaram novos processos movidos pelo Centro da Indústria do Estado do Amazonas e pela Federação da Indústria do Estado do Amazonas para impedir a declaração de um “lockdown” (bloqueio) [5]. O Ministério Público do Estado do Amazonas tentou estabelecer um “lockdown” para conter a pandemia na cidade de Manaus, mas um juiz local negou o pedido, alegando falta de informações suficientes [8].


Estudos demonstraram que as infecções por Covid-19 podem ser significativamente reduzidas por medidas de isolamento social [9], e a duração ideal dessas medidas é superior a dois meses [10]. Esse não foi o caminho seguido em Manaus, contrariando as recomendações de especialistas ao Ministério Público do Estado [5,6 ]. As escolas particulares de Manaus reabriram ao longo das duas primeiras semanas de julho e, em 17 de julho, o sindicato dos professores das escolas públicas votou para entrar em greve se o governo do estado cumprir seu plano de reabertura de escolas públicas em agosto sem uma série de adaptações de edifícios escolares, entre outras medidas. A suspensão das atividades escolares e o fechamento do entretenimento e outros estabelecimentos comerciais têm se mostrado medidas críticas para retardar o avanço da pandemia [9]. Infelizmente, o nível geral de atividade nas ruas e estabelecimentos comerciais de Manaus voltou ao normal, apesar da maior parte da população não ter imunidade conhecida ao vírus [6].


A falha em tomar medidas para evitar um novo aumento de casos e no número de mortes é de responsabilidade dos governos federal, estaduais e municipais. O rápido aumento do número de casos no interior do estado (inclusive em comunidades indígenas) pressionará as UTIs em Manaus [6]. No entanto, mesmo nestas condições, o prefeito de Manaus decidiu fechar os hospitais de campanha, o que deixa a região vulnerável a uma segunda onda de infecção.


Em 08 de julho, o presidente Bolsonaro vetou medidas para proteger os povos indígenas da Covid-19, como distribuição gratuita de materiais de higiene e limpeza e desinfecção de aldeias, além de vetar o fornecimento de leitos hospitalares, unidades de terapia intensiva, ventiladores e equipamento para oxigenação do sangue [11]. Para comunidades tradicionais, incluindo as dos povos indígenas, a perda de um cacique ou ancião da aldeia pode levar à extinção de suas culturas, porque as tradições são transmitidas oralmente pelos mais velhos.


A manutenção da floresta amazônica está ligada à manutenção dos povos indígenas e outros povos tradicionais, uma vez que as terras destes grupos protegem um terço do que resta da floresta amazônica brasileira. É preocupante que o número de casos oficialmente confirmados pelo governo do estado seja maior do que na primeira quinzena de abril [3], que precedeu o grande pico de casos e mortes que desmoronaram o sistema de saúde em abril e maio [5]. Para evitar uma segunda onda de pandemia na Amazônia, medidas efetivas, como o fechamento de escolas e serviços não essenciais, precisam ser implementadas imediatamente.


NOTAS

1.Ferrante, L., W.A. Steinmetz, A.C.L. Almeida, J. Leão, R.C. Vassão, U. Tupinambás, P.M. Fearnside, L.H. Duczmal. 2020. Brazil’s policies condemn Amazonia to a second wave of COVID-19. Nature Medicine 26(8)

2.WHO (World Health Organization). 2020. WHO Coronavirus disease (COVID-19) Situation Report – 170. WHO, Genebra, Suíça.

3.FVS-AM (Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas). 2020. Boletim Diário COVID-19 no Amazonas 18 de junho de 2020. FVS-AM, Manaus, AM.

4.Ferrante , L. & Fearnside, P.M. 2020. Protect indigenous peoples from COVID-19. Science, 368: 251. https://doi.org/1,0.1126/science.abc0073

5.Ferrante, L. & Fearnside, P.M. 2020. O porquê precisamos de “lockdown” em Manaus. Amazônia Real, 13 de maio de 2020.

6.Ferrante, L., Steinmetz, W.A.C., Duczmal, L.H., Teixeira, R.T., Pereira, H.S., Leão, J.S., Candotti, F.M., Baccaro F.B. & Vassão, R.C. 2020. Nota técnica de avaliação e diretrizes para tomada de decisão frente à pandemia da COVID-19 em Manaus. Ministério Público em Amazonas, Manaus, AM.

7.Filho, J. 2020. Coronavírus: Como Samy Dana promoveu um estudo desastrado usado para defender o fim do isolamento. The Intercept Brasil, 10 de maio de 2020.

8.Poder Judiciário do Estado do Amazonas Juízo de Direito da 1ª Vara da Fazenda Pública. 2020. Processo: 0814463-25.2020.8.04.0001 https://diretoaopontonews.com.br/wp-

9.Hsiang, S., Allen, D., Annan-Phan, S., Bell, K., Bolliger, I., Chong, T., Druckenmiller, H., Huang, L.Y., Hultgren, A., Krasovich, E., Lau, P., Lee, J., Rolf, E., Tseng, J. & Wu, T. 2020. The effect of large-scale anti-contagion policies on the COVID-19 pandemicNature.

10.López, L., Rodó, X. 2020. The end of social confinement and COVID-19 re-emergence risk. Nature Human Behaviour 4:746–755.

11.Ribeiro, L. Bolsonaro veta obrigatoriedade de leitos para índios. UOL, 08 de julho de 2020.


Lucas Ferrante é Biólogo formado pela Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL), Mestre em Biologia (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), e doutorando em Biologia (Ecologia) no INPA. Foi primeiro autor de notas em Science e Nature Medicine sobre o impacto de COVID-19 na Amazônia, inclusive em povos indígenas, e coordenou o grupo formado a pedido do Ministério Público-AM sobre a COVID-19 em Manaus. (lucasferrante@hotmail.com).


Wilhelm Alexander Steinmetz éProfessor Adjunto e Chefe do Departamento de Matemática da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) em Manaus. Possui Graduação e Mestrado em Matemática – University of Oxford, Reino Unido (2004), Mestrado e Doutorado em Matemática (Especialização: Álgebra / Geometria Algébrica) – Université Paris-Sud 11, França (2009) e Especialização em Antropologia – Unyleya (2019).


Alexandre Celestino Leite Almeida é professor da Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ) no campus Alto Paraopeba na cidade de Ouro Branco e membro do corpo docente do mestrado profissionalizante PROFMAT (Campus Alto Paraopeba). Possui graduação em Matemática Computacional (2002), mestrado em Matemática (2005) e Doutorado em Engenharia Elétrica (2011) pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente Tem experiência na área de Matemática, com ênfase em Matemática Aplicada. Atualmente está interessado em Detecção de Clusters, redes complexas, Otimização, modelagem de vigas, Epidemiologia e Redes de Sensores sem fio.


Jeremias da Silva Leão éprofessor Adjunto II do Departamento de Estatística e Pesquisador do Grupo de Bioestatística da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Também é pesquisador dos Grupos de Análise de Sobrevivência e Confiabilidade da UFSCar e Modelagem Estatística e Probabilidade da UFCG, e membro permanente do Programa de

Doutorado em Matemática (PDM) em Associação Ampla UFPA/UFAM e do Programa de Pós-Graduação em Matemática (PPGM) da UFAM. Possui graduação em Estatística pela Universidade Federal do Ceará (2007), mestrado em Estatística pela Universidade Federal de Pernambuco (2010) e doutorado em Estatística pela Universidade Federal de São Carlos/Universidade de São Paulo (2017). Tem experiência na área de Probabilidade e Estatística, com ênfase em Econometria/Análise de Regressão, Séries Temporais e Análise de Sobrevivência, atuando principalmente nos temas: Modelos de probabilidades; Modelos Autoregressivos de Duração Condicional; Modelagem de Eventos Extremos; Modelos de Longa Duração e Modelos de Fragilidade.


Ruth Camargo Vassão é aposentada do Laboratório de Biologia Celular do Instituto Butantan – São Paulo, SP. Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo (1980), mestrado em Imunologia pela Universidade de São Paulo (1987) e doutorado em Imunologia pela Universidade de São Paulo (1993), além de pós-doc no Instituto Max-Planck de Imunobiologia de Freiburg e Universidade Albert Ludwigs de Freiburg (Alemanha) (1995-1996). Tem experiência na área de Imunologia, com ênfase em Imunologia de Tumores, atuando principalmente nos seguintes temas: estudo de células e citocinas envolvidas na resposta imune contra tumores. Utilização de fitoterápicos, imunomoduladores e toxinas ofídicas in vivo e in vitro, no modelo de melanoma murino, visando aumento no tempo médio de sobrevida e diminuição no numero de metástases.


Unaí Tupinambás é Professor Associado III do Departamento de Departamento de Medicina Interna da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Assessor técnico do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das de IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais (DIHV). Orientador do programa de pós-graduação em Ciências da Saúde: Infectologia e Medicina Tropical. Possui graduação em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (1986), mestrado em Infectologia e Medicina Tropical pela Universidade Federal de Minas Gerais (1999) e doutorado Curso de Pós-Graduação em Ciências da Saúde: Infectologia e Medicina Tropical – pela Faculdade de Medicina UFMG (2004). É membro do comitê de enfrentamento da COVID-19 na UFMG e Prefeitura de Belo Horizonte. Coordenador de projetos de Extensão e Pesquisa na Faculdade de Medicina para enfrentamento da pandemia COVID-19.


Philip Martin Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 600 publicações científicas e mais de 500 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis aqui.


Luiz Henrique Duczmal é Professor Titular do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É doutor em Matemática (PUC/RJ 1997), com pós-doutorado na Connecticut University (2002), Harvard University (2004), Pennsylvania State University (2006) e Universidade de Faro, Portugal (2008). Fez graduação em Matemática (UFMG 1986) e mestrado em Ciências da Computação (UFMG 1991). Bolsista do Programa Pesquisador Mineiro (Fapemig). Tem experiência na área de Estatística, com ênfase em Estatística Espacial (monitoramento ambiental, clusters espaciais irregulares, vigilância sindrômica e epidemiológica, modelos SEIR de coronavirus (COVID-19), workflow, fontes múltiplas de dados, visualização geográfica) e Estatística Computacional (algoritmos evolutivos, otimização multiobjetivo, autômatos finitos, finanças, estatística industrial, redes de comunicação, etc.).


Fonte: Amazônia Real