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Diário de um genocida numa crise anunciada


O presidente Jair Bolsonaro está construindo uma unanimidade. Na quarta-feira (29), enquanto relatores da Organização das Nações Unidas (ONU) acusavam as políticas do governo brasileiro de serem “um risco à vida e à saúde de milhões de brasileiros”, ele se tornava destinatário de uma carta publicada no site do Conselho Nacional de Saúde (CNS), órgão vinculado ao Ministério da Saúde, classificando de “irresponsáveis, criminosas e genocidas” as ações do Chefe de Estado diante da pandemia do coronavírus.

O documento é contundente: “Não bastassem as atitudes irresponsáveis, criminosas e genocidas, além da campanha de desinformação disseminada pelo presidente, o ministro da Economia, Paulo Guedes, aplica uma política de austeridade fiscal danosa”. A acusação do órgão consultivo, ligado à estrutura do próprio governo brasileiro, continua: “O número de mortes no Brasil, em média, dobra a cada cinco dias e, em vários lugares, os sistemas de sepultamentos já estão também em colapso”.

A velocidade com que os óbitos se sucedem e os hospitais se aproximam do caos pelo Brasil afora, neste fim de abril, é o prenúncio da catástrofe anunciada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 11 de março, quando declarou oficialmente o estado de pandemia, caso não fossem tomadas as medidas até agora consideradas mais eficazes contra a disseminação da Covid-19: a restrição da atividade econômica e o isolamento social em diferentes graus.

Mas já na primeira vez em que mencionou o coronavírus – em 9 de março, ainda nos Estados Unidos, falando à comunidade brasileira de Miami, após visitar Donald Trump – Bolsonaro avaliou que o vírus estaria sendo “superdimensionado”. Retornou ao Brasil, no dia seguinte, com 22 infectados em sua comitiva, talvez o maior foco de transmissão da doença na história da pandemia no Brasil, num episódio marcado pela falta de transparência.

A partir de então, o presidente da República vem adotando um tom ora desafiador às autoridades de saúde, ora instigador de seus seguidores para que quebrem as regras contra aglomerações. Por vezes é messiânico, ao anunciar a cura milagrosa da hidroxicloroquina, em outras mostra-se cinicamente preocupado com a renda dos que até hoje ainda se arriscam em filas em busca do auxílio emergencial que ele e Paulo Guedes haviam fixado em R$ 200.

De sabotagem em sabotagem, Bolsonaro construiu o cenário dantesco que deve advir em maio, quando o país alcançará o pico da pandemia – como tem sido insistentemente alardeado por cientistas, pesquisadores, médicos e enfermeiros do Brasil e do mundo inteiro ao longo de abril. A lista de sandices, mentiras e absurdos, aparentemente, deverá ser atualizada a cada dia, mas veja a seguir o registro do que foi dito até esta quarta-feira, 29 de abril. Uma verdadeira crônica do genocídio enunciada pelo próprio assassino.

AS BARBARIDADES DE BOLSONARO, DIA APÓS DIA

09 de Março – ‘Coronavírus está superdimensionado’

“Os números vêm demonstrando que o Brasil começou a se arrumar em sua economia. Obviamente, os números de hoje têm a ver, a queda drástica da Bolsa de Valores no mundo todo, tem a ver com a queda do petróleo que despencou, se eu não me engano, 30%. Tem a questão do coronavírus também que no meu entender está superdimensionado o poder destruidor desse vírus, então talvez esteja sendo potencializado até por questão econômica”.

10 de Março – ‘Muito do que falam é fantasia, isso não é crise’

“Muito do que tem ali é mais fantasia, a questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propaga”.

11 de Março – ‘Outras gripes mataram mais que essa’

“Vou ligar para o Mandetta agora a pouco. Eu não sou médico, eu não sou infectologista. O que eu ouvi até o momento, outras gripes mataram mais do que essa”.

13 de Março – ‘Apesar do meu teste ter dado negativo, eu não vou apertar a mão de vocês’

“Vida segue normal, um grande desafio pela frente muitos problemas para serem resolvidos… Apesar do meu teste ter dado negativo, eu não vou apertar a mão de vocês”.

16 de Março – ‘Superdimensionamento’ outra vez e ‘luta pelo poder’

“Foi surpreendente o que aconteceu na rua até com esse superdimensionamento. Que vai ter problema vai ter, quem é idoso, (quem) está com problema, (quem tem) alguma deficiência, mas não é tudo isso que dizem. Até que a China já praticamente está acabando”.

“Eu não vou viver preso no Palácio da Alvorada, por mais cinco dias, com problemas grandes para serem resolvidos no Brasil (…) Se afundar a economia, acaba o meu governo, acaba qualquer governo. É uma luta pelo poder. Estou há 15 meses calado, apanhando, agora vou falar. Está em jogo uma disputa política por parte desses caras (Maia e Alcolumbre)”.

17 de Março – Da ‘histeria’ ao pedido de ‘união’

“A economia estava indo bem, fizemos algumas reformas, os números bem demonstravam: a taxa de juros lá embaixo, a questão do Risco Brasil também, então estava indo bem. Esse vírus trouxe uma certa histeria e alguns governadores, no meu entender, eu posso até estar errado, estão tomando medidas que vão prejudicar e muito a nossa economia… Tem locais, alguns países que já tem saques acontecendo. Isso pode vir para o Brasil. Pode ter um aproveitamento político em cima disso… Vai morrer muito mais gente fruto de uma economia que não anda do que do próprio coronavírus”.

“Superar este desafio depende cada um de nós. O caos só interessa aos que querem o pior para o Brasil. Se, com serenidade, população e governo, junto com os demais poderes, somarmos os esforços necessários para proteger nosso povo, venceremos não só este mal como qualquer outro!”

20 de Março – Gripezinha, confronto com governadores e 3º exame

“Tem certos governadores que estão tomando medidas extremas, que não competem a eles, como fechar aeroportos, rodovias, shoppings e feiras… Tem um governo de Estado que só faltou declarar independência do mesmo”.

“Estou bem. Fiz dois testes, talvez faça mais um até, talvez, porque sou uma pessoa que tem contato com muita gente. Recebo orientação médica… Depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar”.

21 de Março – Dória ‘lunático’ e dever de impedir o pânico

“É meu dever impedir que o pânico tome conta do país, o que complicaria ainda mais a situação. É com esse objetivo, de mostrar que superaremos este obstáculo, que tenho tratado a questão com coragem e tranquilidade. De forma alguma usarei do momento para fazer demagogia”.

“Reconheço a seriedade do momento e o temor de muitos brasileiros ante à ameaça do coronavírus. O governo segue trabalhando intensamente e tomará todas as medidas possíveis para conter a transmissão do Covid-19”.

“Para falar a verdade, porque não vou fugir dessa minha característica, (João Doria) é um lunático. Está fazendo política em cima deste caso. Ora é um governador que nega ter usado o meu nome para se eleger governador, então eu lamento essa posição política dele. Ele está aproveitando desse momento para querer crescer politicamente… O assunto, no meu entender, tem de ser voltado exclusivamente para esse problema que temos pela frente que é o coronavírus”.

22 de Março – ‘Alarmismo’ novamente

“Há um alarmismo muito grande por grande parte da mídia. Alguns dizem que estou na contramão. Eu estou naquilo que acho que tem que ser feito. Posso estar errado, mas acho que deve ser tratado dessa maneira”.

“Não podemos nos comparar com a Itália. Lá o número de habitantes por quilômetro quadrado é 200. Na França, 230. No Brasil, 24. O clima é diferente. A população lá é extremamente idosa. Esse clima não pode vir pra cá porque causa certa agonia e causa um estado de preocupação enorme. Uma pessoa estressada perde imunidade”.

24 de Março – Pronunciamento em rede nacional

“A imprensa espalha a sensação de pavor, tendo como grande carro-chefe o grande número de vítimas na Itália, um país com um grande número de idosos e com um clima totalmente diferente do nosso… Algumas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, a proibição de transporte, o fechamento dos comércios e o confinamento em massa… São raros os casos fatais de pessoas sãs com menos de 40 anos”.

25 de Março – ‘A orientação vertical’

“A orientação vai ser vertical daqui para frente. Eu vou conversar com ele (ministro da Saúde) e tomar a decisão. Não escreva que já decidi, não. Vou conversar com o (Luiz Henrique) Mandetta sobre essa orientação… Todos nós pagaremos um preço que levará anos para ser pago, se é que Brasil não possa ainda sair da normalidade democrática que vocês tanto defendem. Ninguém sabe o que pode acontecer no Brasil”.

26 de Março – “Brasileiro tem que ser estudado, não pega nada”

“Acho que não vai chegar a esse ponto (crítico), até porque o brasileiro tem que ser estudado, não pega nada. Vê o cara pulando em esgoto, sai, mergulha e não acontece nada”.

27 de Março – ‘Infelizmente algumas mortes terão. Paciência’

“Vamos enfrentar o vírus. Vai chegar, vai passar. Infelizmente algumas mortes terão. Paciência, acontece, e vamos tocar o barco. As consequências, depois dessas medidas equivocadas, vão ser muito mais danosas do que o próprio vírus”.

29 de Março – “Nós vamos morrer um dia”

“O que eu tenho conversado com o povo, eles querem trabalhar. É o que eu tenho falado desde o começo. Vamos tomar cuidado, a partir dos 65 fica em casa… Temos o problema do vírus, temos, ninguém nega isso aí. Devemos tomar os devidos cuidados com os mais velhos, as pessoas do grupo de risco. Agora, o emprego é essencial. Essa é uma realidade. O vírus tá aí, vamos ter de enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, pô, não como moleque. Vamos enfrentar o vírus com a realidade. É a vida, todos nós vamos morrer um dia”.

30 de Março – ‘Vamos enfrentar o problema? Ou o problema é o presidente?’

“Vamos enfrentar o problema ou não? Ou o problema é o presidente? Tem que trocar de presidente e resolve tudo? Logicamente, a vida é mais importante do que a economia, mas se o desemprego vier como está vindo de forma violenta, dado ao não afrouxamento de algumas regras agora, vamos ter um problema seríssimo amanhã ou depois que serão a fome, miséria, irritação, depressão. Não sabemos aonde isso pode levar… Você não pode impor esse isolamento de forma quase que eterna, como alguns Estados fizeram. Tem que afrouxar paulatinamente para que o desemprego não aumente mais no Brasil”.

1º de Abril – Vídeo falso, pedido de desculpas e negação de recuo

“Não é um desentendimento entre o presidente e alguns governadores e alguns prefeitos. São fatos e realidades que devem ser mostradas. Depois da destruição não interessa mostrar culpados…. Quero me desculpar publicamente pelo vídeo (publicado) sobre desabastecimento (na Ceasa). A gente erra e corrige”.

“Não há mudança de tom quando se fala em salvar vidas após alertar sobre histeria, como sugere determinada emissora. Ela sabe que ambos são problemas coexistentes e que precisam ser combatidos pelo bem-estar do Brasil, mas prefere tentar enganar a população”.

02 de Abril – ‘Você fala por milhões de pessoas’

“Pode ter certeza que a senhora fala por milhões de pessoas”, respondeu à apoiadora que pedia o fim do isolamento em frente ao Palácio da Alvorada.

Sérgio Lima

Governo ignora dados para orientar ações

03 de Abril – ‘Terrorismo’

“Esse vírus é igual uma chuva, vai molhar 70% de vocês, certo? Isso ninguém contesta. Toda a nação vai ficar livre de pandemia quando 70% (da população) for infectado e conseguir os anticorpos. Ponto final. Mas uma pequena parte da população, os mais idosos, vão ter um problema sério. Sabemos que vai ter morte, ninguém nega isso”.

08 de Abril – ‘40 dias’

“Após ouvir médicos, pesquisadores e chefes de Estado de outros países, passei a divulgar, nos últimos 40 dias, a possibilidade de tratamento da doença desde sua fase inicial… Essa decisão poderá entrar para a história como tendo salvo milhares de vidas no Brasil. Nossos parabéns ao Dr. Kalil”, citando o médico que admitiu ter tomado hidroxicloroquina para se tratar da doença.

09 de Abril – ‘Guerra ideológica’ sobre a cloroquina

“Isso é uma guerra ideológica em cima disso, guerra de poder. Se o pessoal me ajudasse um pouquinho, não me atrapalhasse – não me refiro a A, B ou C –, o Brasil ia embora… Tem médico que usa. Tá usando tem quase dois meses. A gente sabe que não está ainda comprovado cientificamente, mas…”

10 de Abril – ‘Direito constitucional de ir e vir’

“Eu tenho o direito constitucional de ir e vir. Ninguém vai tolher minha liberdade de ir e vir. Ninguém”, em tour por Brasília no feriado da sexta-feira da Paixão.

Adriano Machado/Reuters

Bolsonaro é acusado pelo PT na Justiça Federal de atentar contra a saúde pública e a vida dos brasileiros, por seu comportamento durante a crise do Covid-19.

12 de Abril – ‘Começando a ir embora’

“Tenho dito desde o começo, há 40 dias. Temos dois problemas pela frente, o vírus e o desemprego. Quarenta dias depois, parece que está começando a ir embora a questão do vírus, mas está chegando e batendo forte o desemprego… Devemos lutar contra essas duas coisas (o vírus e o desemprego). Obviamente, sempre lutamos crendo, acreditando em Deus acima de tudo. Vamos vencer esses obstáculos. Não serão fáceis, mas chegaremos lá”.

17 de Abril – ‘Risco’ na posse do novo ministro da Saúde

“Eu li uma matéria agora que 50% dos prefeitos já querem a abertura. Até pouco tempo atrás era quase 100% não queria. Daqui a pouco vai chegar do nosso lado e falar Bolsonaro tem razão”.

“Essa briga de começar a abrir para o comércio é um risco que eu corro. Se agravar (a doença) vem ao meu colo. Agora, o que acredito, que muita gente está tendo consciência que tem de abrir”.

18 de Abril – ‘Não tem que se acovardar’

“Não tem que se acovardar com esse vírus na frente… Os Estados estão quebrados. Falta humildade para essas pessoas que estão bloqueando tudo de forma radical”.

20 de Abril – ‘Não sou coveiro, tá?’

“Dá para recuperar o Brasil ainda. Eu espero que essa seja a última semana dessa quarentena, dessa maneira de combater o vírus, todo mundo em casa. A massa não tem como ficar em casa, porque a geladeira está vazia”.

“Presidente, hoje tivemos mais de 300 mortes. Quantas mortes o senhor acha que…”, perguntava um jornalista. Bolsonaro o interrompeu: “Ô, cara, quem fala de… Eu não sou coveiro, tá certo? Não sou coveiro, tá?”

28 de Abril – ‘Quer que eu faça o quê?’

“E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”. Momentos depois: “Lamento a situação que nós atravessamos com o vírus. Nos solidarizamos com as famílias que perderam seus entes queridos, que a grande parte eram pessoas idosas. Mas é a vida. Amanhã vou eu. Logicamente, a gente quer ter uma morte digna e deixar uma boa história para trás”.

29 de Abril – ‘Não vão botar no meu colo’

Sobre as mais de 5 mil mortes no país: “Não vão botar no meu colo uma conta que não é minha. A imprensa tem que perguntar para o (João) Doria por que mais pessoas estão perdendo a vida em São Paulo. Não adianta a imprensa querer colocar na minha conta essas questões que não cabe a mim. O Supremo (Tribunal Federal) decidiu que quem decide essas questões (sobre restrição) são governadores e prefeitos”.

Fonte: Agência PT

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