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Serra indignado com manifestação contra o golpe no Brasil, pede arrego à polícia francesa


Após ter sido informado do envio de uma carta a membros da OCDE pedindo a anulação de sua participação, o ministro golpista das Relações Exteriores, José Serra (PSDB), teria pedido intervenção da polícia francesa para reprimir manifestação contrária a ele organizada por brasileiros, segundo informaram manifestantes.

Serra está em Paris para participar de reunião da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) – da qual o Brasil é país convidado, mas não membro efetivo.

A jornalista, escritora e atriz brasileira Márcia Bechara, residente em Paris, denunciou em seu perfil no Facebook que José Serra teria chamado a polícia francesa para reprimir o protesto - previamente autorizado. “Estou saindo neste momento da porta da

OCDE onde um grupo de 40 brasileiros com bandeiras, cartazes e palavras de ordem – nós – gritamos contra o golpe no Brasil. Policiais franceses à paisana já nos esperavam em nossa chegada e não deixaram nos aproximar da entrada oficial do evento. Éramos 30 ou 40 pessoas no máximo”, explica.

“O covarde golpista pediu arrego para a polícia francesa. Duas brasileiras da organização que haviam pedido autorização para a manifestação de hoje receberam ontem à noite um telefonema da polícia francesa dizendo que ‘monsieur Serra’ estava se sentindo ameaçado”.

Segundo esclareceu em seu perfil, Bechara checou todas as informações publicadas com a organização do movimento. “Conversei com policiais à paisana também. O resto, conto de testemunho pessoal, eu estava lá”. “Policiais franceses visivelmente constrangidos nos disseram no final: “à la prochaine”. “Até a próxima”. Não tem arrego.” E afirmou, indignada: “É a primeira vez na vida que escuto falar de um político brasileiro que telefona para uma polícia estrangeira para reprimir movimento fora de seu país”.

Apesar disso, brasileiros não se intimidaram e saíram às ruas para protestar. “Alguns de nós nem estávamos pensando em participar, mas depois dessa tentativa de nos calar, decidimos vir”, declarou uma brasileira que participou do protesto à Midia Ninja.

Leia a íntegra da carta:

Paris, 31 de maio de 2016

Senhor Secretário Geral,

Senhora Presidente da Reunião Ministerial Anual da OCDE,

Senhores membros dessa reunião de cúpula:

Nós, brasileiros residentes na França, membros do Movimento Democrático 18 de Março,preocupados com a crítica situação política e econômica pela qual passa o Brasil, conclamamos essa importante Organização Mundial a rever a participação do Senador brasileiro José Serra na Reunião Ministerial Anual da OCDE.

Esse Organismo tem entre seus membros as mais importantes democracias do mundo e em seus princípios, prega a importância de que os governos mantenham uma boa governança, em que as instituições e a regulamentação jurídica e administrativa estejam em pleno funcionamento.

Infelizmente, esse não é o caso do Brasil nos dias atuais. Nossa democracia foi duramente atingida por um golpe parlamentar, levado a cabo com o beneplácito do Superior Tribunal Federal, órgão máximo da justiça nacional.

A Presidenta Dilma Rousseff, eleita com mais de 54 milhões de votos, foi afastada de suas funções por um parlamento manchado por múltiplas e graves denúncias de corrupção e composto por parlamentares que defendem a ditadura militar, a homofobia, a misoginia e que, portanto, não podem ser considerados como membros de uma Democracia consolidada e moderna.Nossa Presidenta foi afastada de suas funções, mas não destituída.

Assim, o Brasil tem hoje uma Presidenta eleita e um vice-presidente (Michel Temer) que assumiu interinamente o governo, situação atípica e desestabilizadora de nossas instituições. O governo interino conta com baixíssimos índices de aprovação da população, mas se propõe a fazer profundas reformas na economia e na administração pública brasileiras, implantando um projeto ultraconservador que foi reprovado nas urnas em 2014.

O Senador José Serra, participante de primeira hora das articulações subterrâneas que levaram ao afastamento da Presidenta, assume interinamente o Ministério das Relações Exteriores do Brasil,portanto, de forma ilegítima e pouco ética. O corpo ministerial de que faz parte, composto somente por homens brancos e oriundos da elite financeira do país, não tem o respaldo popular que o credencie a representar o Brasil nesta reunião.

Apenas doze dias após o início do governo interino de Michel Temer, o principal Ministro teve que renunciar por denúncias de corrupção e mais 6 ministros, sobre os quais pesam acusações, correm o risco de trilhar o mesmo caminho. O próprio vice-presidente tem contra si denúncias de participar do esquema de corrupção que ficou conhecido como “Lava-Jato”.

Temos, hoje, no Brasil um governo interino, ilegítimo e fragilizado. O Ministério da Cultura foi extinto e posteriormente recriado após a fortíssima pressão dos movimentos culturais e da população, mas continuam extintos os Ministérios da Mulher, da Igualdade Racial e de Direitos Humanos. Este último foi transformado em uma secretaria ligada ao Ministério da Justiça, hoje comandado pelo ex-secretário de Segurança do Estado de São Paulo, conhecido pelo altíssimo número de assassinatos cometidos por policiais e pela violenta repressão a manifestações populares durante sua gestão, com destaque para os estudantes que foram violentamente agredidos dentro de suas escolas quando protestavam contra a corrupção na compra da merenda escolar.

Dessa forma, conclamamos a OCDE a não aceitar entre os seus digníssimos membros um Ministro Interino e ilegítimo, de um governo que assumiu o país por meio de um Golpe Parlamentar,comprovado nos últimos dias por meio de escutas que revelam que entre os objetivos desse golpe estava impedir a continuação das investigações de corrupção no país.

Não é possível que um Ministro desse governo, que ataca a democracia, extingue ministérios das áreas sociais e diminui as verbas dos vários programas de inclusão criados nos últimos 14 anos(PROUNI, Ciência Sem Fronteiras, PRONATEC, Mais Médicos, Minha Casa Minha Vida, Bolsa Família, PRONAF etc), seja convidado a falar em um painel denominado “Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável”.

Esse governo e esse Ministro não nos representam. Nas ruas do Brasil o povo reivindica a volta da Democracia, mesmo que nossos protestos sejam ignorados e escondidos pelas mídias pró-golpe,notadamente a Rede Globo.

Confiamos que os membros da OCDE, honrando sua tradição de mais de 50 anos, defendam a democracia e as instituições brasileiras, principalmente as mais importantes delas: o voto popular e a vontade do povo.”

Fonte: Agência PT de Notícias, com informações da Midia Ninja/Foto: Frédéric Pages

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