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Nova descoberta do Sistema Solar atrai público jovem na Campus Party


Astrônomo brasileiro Felipe Ribas apresentou o primeiro sistema de anéis ao redor de um corpo celeste, conhecido como Chariklo

O pesquisador Felipe Braga Ribas, do Observatório Nacional (ON/MCTI), participou como palestrante de um dos maiores eventos de internet no mundo, a Campus Party Brasil, encerrada nesse domingo (8), em São Paulo.

O astrônomo brasileiro apresentou os resultados da pesquisa que levou à descoberta do primeiro sistema de anéis ao redor de um pequeno objeto do Sistema Solar, conhecido por Chariklo, um corpo celeste do tipo centauro. Assista à palestra ministrada durante o evento.

Até então, esta característica só havia sido identificada em planetas – Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. A descoberta, liderada por Felipe Braga Ribas, teve a participação de 64 pessoas de 12 países diferentes. Deste total, 12 são brasileiros.

Formado em física pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Felipe Braga Ribas é mestre em Ciências (Astronomia) pelo Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e se doutorou em astronomia e astrofísica pelo ON e pelo Observatório de Paris, na França, em 2013.

No ano passado, recebeu o Grande Prêmio Capes de Tese na área de física/astronomia. Ainda pelo ON, concluiu o pós-doutorado em 2015. Seu trabalho se concentra no estudo de pequenos corpos do sistema solar, usando a técnica de ocultações estelares.

Confira abaixo a entrevista concedida ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação:

Qual a importância de fazer uma palestra sobre um tema tão específico num evento como a Campus Party, de público muito jovem?

A Campus Party é formada por um público muito curioso, altamente interessado em inovação e ciência. Vejo o público como possíveis futuros cientistas, daí a importância de mostrar para eles que grandes resultados podem ser obtidos com muito estudo e dedicação.

Você acha que esse tipo de evento pode contribuir para a popularização do conhecimento científico?

Sem dúvida, a natureza curiosa desses jovens fará com que busquem e difundam cada vez mais informação sobre a ciência. Ao final da minha palestra eles superaram minhas expectativas, fazendo diversas perguntas, sempre tentando ir além do que foi exposto.

O que você abordou na palestra? Quais foram os principais pontos apresentados?

Expliquei o que é e como e porque se observa uma ocultação estelar, mostrei as imagens que permitiram a descoberta dos anéis e como determinamos sua largura.

Mostrei também o que passamos a compreender a partir da descoberta, porque sabemos que eles são formados parcialmente por gelo de água e o que descobrimos de novo – com novas observações – em 2014. Terminei mostrando a eles possíveis cenários de formação desses anéis.

Você liderou a pesquisa que levou à descoberta do primeiro sistema de anéis ao redor de um pequeno objeto do Sistema Solar. O que isso significa para a ciência brasileira e para a ciência como um todo?

É mais um exemplo de que a astronomia brasileira tem capacidade de fazer pesquisa de ponta. Há muito que os brasileiros são bem vistos no exterior, como pesquisadores competentes, criativos e muito dedicados. Com a descoberta, abre-se uma nova área de pesquisa sobre anéis planetários. É preciso adequar muitos estudos para a análise desses anéis em pequenos corpos do Sistema Solar.

O que de fato isso muda ou como interfere no nosso dia a dia?

O ser humano está sempre querendo conhecer o mundo à sua volta e, de certa forma, é isso que fazemos na ciência. O diferencial deste tipo de descoberta, é que, a partir dela, um objeto completamente novo e inesperado passou a ser conhecido pela humanidade. A partir de agora, muito há para se compreender sobre a origem e manutenção desses anéis.

Como foram feitas essas observações no Sistema Solar?

A descoberta foi feita durante um evento conhecido como ocultação estelar. Nesses eventos um objeto do sistema solar passa na frente de uma estrela, para um dado observador. Medindo a duração desta passagem e sabendo a velocidade orbital do objeto, temos uma medida do perfil do objeto. Se tivermos vários observadores em diferentes locais, teremos medidas em diferentes partes do perfil do objeto, e assim conseguimos determinar tamanho e forma com grande precisão.

Em 3 de junho de 2013, a partir de uma previsão de uma ocultação por Chariklo, realizamos uma grande campanha observacional. Assim, vários observadores monitoraram a estrela alvo durante um período próximo à previsão. O monitoramento é feito por uma sequência de imagens, como um filme, que mostrarão a variação do brilho da estrela ao longo do tempo por conta da passagem do objeto na frente, uma curva de luz.

Este trabalho é fruto de uma colaboração entre o Observatório Nacional e o Observatório do Valongo com o Observatório de Paris e o Instituto de Astrofísica da Andaluzia [Espanha]. No Rio o grupo é liderado pelo doutor Roberto Vieira Martins, do ON.

Quais são as propriedades desses anéis?

Os anéis são muito densos e estreitos, com cerca de 7 e 3,5 quilômetros de largura. Orbitam a cerca de 400 km do centro do corpo principal, Chariklo. Eles são formados por 20% de gelo de água e são muito brilhantes.

A partir dessa descoberta, quais serão os próximos passos da pesquisa?

A ideia é continuar observando ocultações estelares pelo sistema de Chariklo. É a única técnica que permite medir o tamanho e densidade dos anéis. Assim pretendemos ver efeitos dinâmicos que provocariam variações de largura neles e assim determinar propriedades sobre o campo gravitacional do corpo principal, Chariklo. Além disso, em julho utilizaremos o telescópio espacial Hubble, para fazer imagens diretas dos anéis e, assim, medir suas propriedades reflexivas e buscar por possíveis satélites orbitando de Chariklo.

Foto: Divulgação/MCT - Concepção artística mostra a aparência que os anéis do Chariklo podem ter, quando observados a partir da superfície do centauro

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

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