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Importação e carência de pessoal inibem desenvolvimento do setor químico


Com participação de US$ 32 bilhões de toda a cadeia química no déficit da balança comercial brasileira de produtos industrializados no ano, o setor mostra que seu desenvolvimento não foi beneficiado pelas conquistas econômicas e sociais que ocorreram recentemente no país, de acordo com a gerente de Tecnologia e Inovação da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), Mariana Dória. No ano passado, o déficit dos manufaturados foi ainda maior: atingiu US$ 105 bilhões.



Em análise para a Agência Brasil, ao participar do Seminário Abiquim de Tecnologia e Inovação, aberto hoje (8), no Rio de Janeiro, ela disse que “todo o desenvolvimento que ocorreu no país, a expansão da classe média, não beneficiaram diretamente o setor. Ele foi suprido com produtos de maior valor agregado, proveniente de fora". A gente importa produtos químicos, de maior valor agregado, e exporta produtos químicos de menor valor agregado, informou.



Mariana acrescentou que se considerar toda a cadeia química, em especial fármacos e química fina, ocorre uma importação muito significativa e uma exportação mais de produtos de uso industrial, de commodities (produtos agrícolas e minerais comercializados no mercado internacional). Segundo ela, para que haja superação do déficit é preciso agregar valor ao produto químico nacional. “É necessário agregarmos tecnologia”, ressaltou.



Intensivo em tecnologia, o setor químico se ressente da falta de profissionais qualificados, em especial mestres e doutores que desenvolvam tecnologia e inovação para o mercado, difíceis de serem encontrados. Segundo a gerente da Abiquim, a mão de obra especializada evoluiu muito no Brasil, nos últimos 20 anos, mas até ter maturidade e formar um pesquisador leva tempo. "Mesmo com todos os incentivos existentes, os profissionais vão dar resultado somente em cinco ou dez anos. Não menos tempo do que isso”, estimou.



Houve avanços, na última década, em termos de marcos regulatórios e instrumentos de fomento à inovação, comentou, e “nos últimos dois anos, teve novos instrumentos de fomento que auxiliaram muito a indústria a buscar o caminho da inovação”. Mariana Dória lembrou que, muitas vezes, como a inovação no setor apresenta muito risco, tem retorno somente no médio e longo prazo e carece de altos investimentos, e “não é possível a indústria fazer, sozinha, esses investimentos”. O retorno só ocorre no prazo de dez a 15 anos, destacou. Daí a importância da parceria com o governo.



O seminário que a Abiquim promove até amanhã (9) discute as particularidades e os incentivos à inovação no setor químico nacional. Mariana defende o trabalho em conjunto entre governo, centros de pesquisa e empresas para incentivar o desenvolvimento tecnológico da indústria química, pois “a gente precisa sempre da sinergia entre os três atores”.



Destacou, entretanto, que ainda faltam linhas de fomento específicas para escalonamento industrial, “porque são investimentos, às vezes, de dez anos para tirar o projeto da bancada e colocar em uma planta industrial”. Existem também gargalos que Mariana incluiu no chamado custo Brasil. Ela disse que é muito caro construir centros de pesquisa no país, "porque você precisa de muitas máquinas e equipamentos laboratoriais, todos importados. É caro importar, e existem não só taxas, mas toda burocracia. Às vezes, você demora seis ou oito meses para ter uma máquina no seu laboratório, e isso retarda e encarece a pesquisa, sinalizou.



A inovação tecnológica é considerada fator estratégico para a competitividade da indústria química brasileira. Único evento de tecnologia do setor químico no Brasil, o seminário da Abiquim objetiva discutir o desenvolvimento do setor que leve em conta a sustentabilidade, a geração do conhecimento e o aumento do emprego de alta qualidade no país.



Agência Brasil - Repórter Alana Gandra / Rede Mundo

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